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O Interior tem recursos. O desafio é transformá-los em futuro

Portugal precisa de deixar de medir o desenvolvimento dos seus territórios apenas pelo investimento que recebem e começar a avaliá-lo pelas empresas, pelo emprego e pelas oportunidades que conseguem gerar.

Portugal não tem falta de recursos no Interior. Tem património natural, produtos de qualidade, conhecimento acumulado, empresas, instituições e pessoas que continuam a trabalhar e a investir em territórios onde, demasiadas vezes, as condições para desenvolver uma atividade económica são mais difíceis do que nos grandes centros urbanos.

O problema está na distância entre aquilo que estes territórios possuem e aquilo que conseguem transformar em oportunidades duradouras.

Durante demasiado tempo, a discussão sobre o Interior tem-se concentrado na perda de população, na necessidade de atrair visitantes e na distribuição de apoios públicos. São questões importantes, mas falta colocar no centro do debate uma pergunta decisiva: que capacidade económica fica num território depois de o investimento ter sido realizado?

Esta pergunta obriga-nos a olhar para além das verbas executadas, das infraestruturas inauguradas e dos projetos anunciados. Obriga-nos a perceber se surgem empresas sustentáveis, se o emprego ganha qualidade, se os produtos chegam a novos mercados e se as pessoas encontram condições para construir o seu futuro.

Porque valorizar um território é importante. Criar condições para que nele se possa viver, trabalhar e prosperar é indispensável.

Uma economia não pode depender apenas daquilo que já atrai

O turismo tem sido fundamental para valorizar muitos territórios do Interior. Dinamiza empresas, cria emprego, promove produtos locais e dá visibilidade a recursos que durante décadas permaneceram insuficientemente reconhecidos. Seria injusto ignorar o trabalho de quem investe neste setor, frequentemente em condições exigentes.

Mas existe uma diferença entre conseguir atrair pessoas e desenvolver uma economia capaz de sustentar, de forma continuada, as oportunidades de uma comunidade.

O turismo pode ser um importante motor económico, mas não deve limitar a procura de outras atividades. Uma economia mais diversificada pode oferecer percursos profissionais distintos, reduzir a dependência de oscilações da procura e criar novas ligações entre empresas, produtores, serviços especializados e instituições de conhecimento.

Não se trata de escolher entre turismo e indústria, tradição e inovação, ou preservação ambiental e desenvolvimento. Trata-se de aproveitar os recursos existentes para criar mais valor, acrescentar novas atividades e ampliar as possibilidades económicas de cada território.

Manteigas, na Serra da Estrela, ilustra uma parte deste desafio. Segundo os Censos do Instituto Nacional de Estatística (INE), o concelho passou de 3.430 habitantes, em 2011, para 2.909, em 2021, uma redução de cerca de 15,2%. Em contrapartida, as dormidas nos estabelecimentos de alojamento turístico aumentaram de 42.548, em 2019, para 71.567, em 2023, de acordo com o perfil estatístico do concelho publicado pelo Gabinete de Estratégia e Estudos, com dados do INE.

Estes indicadores não demonstram uma relação direta entre o crescimento turístico e a evolução demográfica, nem permitem concluir que o turismo tenha falhado na fixação de população. Mostram, porém, que a capacidade de atrair visitantes e a capacidade de assegurar condições para que as pessoas permaneçam são dimensões distintas do desenvolvimento.

Investir não é o mesmo que desenvolver

A resposta aos desafios do Interior não está apenas em disponibilizar mais incentivos financeiros ou aumentar o investimento público. Esses instrumentos são importantes, mas o seu valor depende dos resultados que ajudam a produzir.

Uma empresa precisa de mais do que um apoio para decidir onde investir. Precisa de acessibilidades, conectividade digital, espaços adequados, trabalhadores com as competências necessárias, habitação para quem pretende instalar-se e condições para chegar aos seus mercados. Precisa, sobretudo, de identificar uma oportunidade económica que justifique o investimento e permita sustentar a atividade.

É aqui que as políticas públicas devem ganhar maior precisão. Em vez de começar apenas pelos fundos disponíveis ou pelos projetos que é possível financiar, importa conhecer as capacidades de cada território, identificar oportunidades concretas e compreender os obstáculos que impedem a sua concretização.

Isso exige aproximar empresas, instituições de ensino, centros de investigação e Administração Pública. Exige estudar mercados antes de anunciar soluções, apoiar a modernização das empresas existentes e identificar atividades que possam aproveitar recursos locais, conhecimento e competências profissionais. Exige também reconhecer que nem todos os territórios têm as mesmas vantagens, nem todas as atividades são viáveis em todos os lugares.

A avaliação dos resultados precisa igualmente de mudar. A execução de uma verba demonstra que houve investimento, mas não prova, por si só, que existiu desenvolvimento. Uma infraestrutura pode ser necessária sem garantir atividade económica. Um projeto pode cumprir os seus objetivos imediatos sem criar condições para a continuidade.

O verdadeiro resultado de uma política de desenvolvimento não é apenas o que se constrói ou financia, mas a capacidade económica que permanece quando o projeto termina.

Por isso, importa avaliar se as empresas se consolidam, se o emprego é sustentável e qualificado, se surgem novos mercados e se o conhecimento produzido se traduz em atividade económica. Uma política séria não se limita a anunciar sucessos: acompanha resultados, identifica insuficiências e corrige prioridades quando necessário.

Não há desenvolvimento sem condições para viver

Nenhuma estratégia económica será suficiente se ignorar as condições de vida das populações. A permanência das pessoas depende de emprego, mas também de habitação acessível, mobilidade, educação, saúde, serviços públicos e perspetivas para as famílias.

Não faz sentido pedir aos jovens que permaneçam no Interior sem discutir as oportunidades profissionais que encontram. Não basta atrair uma empresa se os trabalhadores não conseguirem encontrar casa ou se as ligações necessárias à atividade forem insuficientes. E não é razoável exigir aos municípios que invertam a perda de população sem reconhecer que muitas das condições necessárias dependem de decisões nacionais.

O desenvolvimento territorial exige responsabilidade partilhada. Os municípios devem conhecer os seus territórios, estabelecer prioridades e criar condições dentro das suas competências. As empresas precisam de investir, inovar e procurar novos mercados. As instituições de ensino e de investigação devem aproximar conhecimento e atividade económica. Ao Estado cabe assegurar políticas coerentes, serviços adequados e condições que não transformem a localização geográfica numa desvantagem permanente.

O Interior não precisa de reproduzir o modelo económico dos grandes centros urbanos, nem de abdicar da sua identidade para atrair investimento. Precisa de transformar as suas características próprias em vantagens concretas, criando condições para que os recursos naturais, as empresas, o conhecimento e as competências existentes possam gerar mais valor.

A questão do Interior não é apenas demográfica, social ou territorial. É também económica e nacional. Um país que concentra excessivamente as oportunidades limita as possibilidades de quem vive fora dos grandes centros e deixa por aproveitar parte da sua capacidade produtiva.

A coesão territorial não deve ser entendida apenas como um esforço para compensar distâncias ou corrigir desigualdades. Deve ser também uma estratégia para ampliar a capacidade económica de Portugal, reconhecendo que diferentes territórios podem contribuir de formas distintas para o desenvolvimento comum.

O Interior não precisa apenas de ser valorizado pelo que tem. Precisa de ter condições para transformar aquilo que tem em empresas, conhecimento, emprego e oportunidades.

É nessa passagem dos recursos às capacidades, do investimento aos resultados e da valorização à criação de oportunidades, que se decide uma parte importante do futuro de Portugal.

Cláudio Massano Serra, presidente da direcção da Federação de Bombeiros do Distrito da Guarda

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