Falta de material básico, problemas informáticos, listas utentes extensas e falta de profissionais são as principais falhas evidenciadas por muitas USF e poucas avaliam positivamente o apoio logístico das ULS.
A 15.ª edição do estudo “O Momento Actual dos Cuidados de Saúde Primários em Portugal” confirma que nas Unidades de Saúde Familiar (USF) persistem fragilidades estruturais, nomeadamente falta de material básico, problemas com os sistemas informáticos, listas de utentes demasiado extensas, ineficiências na contratualização e integração ainda incompleta nas Unidades Locais de Saúde(ULS).
O estudo, promovido pela Associação Nacional das Unidades de Saúde Familiar (USF-AN), baseia-se nas respostas de coordenadores de 538 USF (77,6% das USF existentes a nível nacional no início do estudo), que foram recolhidas entre Julho e Setembro. O estudo, consultado pelo jornal “Todas as Beiras” e que terá sido apresentado esta manhã em Santarém no 10º Encontro Nacional de USF, destaca a existência de maior número de unidades de saúde familiares modelo B – uma forma de organização dos centros de saúde com incentivos baseados no cumprimento de vários indicadores – graças ao fim das quotas.
«Nunca houve tantas USF – 695 – e tantas pessoas inscritas em USF – 7,9 milhões, assim como profissionais a trabalhar segundo este modelo», refere o estudo, considerando que «esta situação pode ainda melhorar este ano se as 37 candidaturas (o melhor ano quanto a candidaturas desde 2019) se concretizarem com mais 300.000 utentes com equipa de saúde familiar numa USF B». Quanto a profissionais, as USF contam com 4814 médicos de família, 4592 enfermeiros de família, 3441 secretários clínicos. E 1817 médicos internos a fazer a formação especializada, um número “que baixou 128 profissionais desde o ano passado». O relatório refere ainda que, na altura do inquérito, «cerca de 10,5% dos utentes sem equipa de saúde estão em USF».
Embora façam uma avaliação global positiva das ULS, os coordenadores das USF consideram que o novo modelo de organização do Serviço Nacional de Saúde (SNS) ainda é alvo de queixas, entre as quais a dimensão das listas de utentes, a referência hospitalar, a interoperabilidade entre programas informáticos nas USF e a conciliação entre as actividades na USF e a vida pessoal/familiar.
Mais de 99% das USF foram afectadas por indisponibilidades informáticas
Quanto aos sistemas de informação, o relatório refere que a insatisfação tem sido «uma constante nos últimos estudos, e este não é excepção», salientando que «o Registo de Saúde Electrónico Único, tão estrutural para promover os cuidados centrados no utente e a integração de cuidados, não é ainda uma realidade».
O relatório indica que «99,6% das USF foram afectadas por indisponibilidades informáticas», das quais 15% mais de 50 vezes. A resolução dos problemas nem sempre foi célere, já que «86,6% tiveram atrasos importantes na resolução dos problemas, 10% um dia ou mais».
Por exemplo, no caso da ULS da Guarda, 20% respondeu que já ficou sem acesso às aplicações informáticas pelo menos mais de 11 vezes, 60% entre três a dez vezes e 20% entre uma e duas vezes. Quanto à resolução do problema, 20% respondeu que foi no próprio dia, 60% também «no mesmo dia, mas com atrasos importantes» e 20’% no mesmo dia e sem atrasos importantes. O facto de não ter tido acesso às aplicações informáticas, 80% respondeu que perturbou a qualidade dos cuidados que a USF prestou.
No que diz respeito ao equipamento clínico, «apenas 32% das USF o consideram suficiente: 90% referem faltas de material básico (incluindo kits para rastreios, papel para impressoras, vacinas), 30% delas mais de dez vezes no ano, com atrasos de reposição superiores a dois dias em 77% dos casos», refere o relatório. Concretamente na ULS da Guarda, foi evidenciado que havia frequentemente falhas; 20% dos quais responderam que eram mais de dez vezes por ano, outros 20% entre três a dez vezes e 40% entre uma a duas vezes. E estas falhas só foram resolvidas após 48 horas ou mais.
ULS da Guarda faz uma avaliação positiva do Ministério da Saúde
Quanto à avaliação do Ministério da Saúde (Abril 2024 – Maio 2025), apenas a ULS Guarda (67%) apresenta um valor de satisfação relevante, enquanto que diversas outras não registaram qualquer satisfação, como são os casos de Alentejo Central, Baixo Alentejo, Cova da Beira ou Litoral Alentejano. A insatisfação é máxima na ULS Cova da Beira (100%), Litoral Alentejano (100%), São José (88%) e Nordeste (83%).
Após Maio deste ano, a avaliação em relação ao Ministério da Saúde apresenta valores de satisfação ainda mais baixos, com máximo atribuído na ULS Guarda (50%). A insatisfação atinge 100% na Cova da Beira e Litoral Alentejano, 93% em São José e 86% em Viseu Dão-Lafões. Sobre a ACSS, a satisfação é residual (50% na Guarda, 33% em Castelo Branco). Há, no entanto uma insatisfação muito elevada no Baixo Alentejo (100%), Alentejo Central (86%) e São João (82%).
Quanto ao SNS, os níveis de satisfação são muito baixos, não ultrapassando os 33% (Guarda e Castelo Branco). A insatisfação atinge 100% na Cova da Beira, Oeste e Baixo Alentejo, e 95% em São João. Relativamente à avaliação da Direcção-Geral de Saúde, a ULS Litoral Alentejano (100%) e a da Guarda (50%) surgem com valores de satisfação positivos. Já a insatisfação atinge 67% em Castelo Branco e 57% em Matosinhos.

Satisfação plena na avaliação às estruturas da ULS da Guarda
A percepção global dos coordenadores é de cepticismo e reserva. O relatório refere que «apenas um quarto (26,2%) acredita que a criação das ULS trouxe melhorias para a saúde das populações, enquanto um terço discorda dessa ideia», mas «a maioria posiciona-se num espaço de indefinição, sinal de que o modelo ainda não se tornou tangível para quem o executa no dia a dia».
«Apesar de o discurso político enfatizar a “coordenação e articulação”, menos de 40% dos profissionais reconhecem melhorias na articulação entre serviços e apenas um terço identifica ganhos na coordenação com os serviços de apoio à atividade clínica», pode ler-se no relatório, acrescentando que «estes resultados revelam que a integração formal ainda não se traduziu em integração funcional».
O dado «mais preocupante é, contudo, o da exclusão sentida pelos Cuidados de Saúde Primários [CSP]: apenas 21,4% dos profissionais afirmam que a sua USF está a ser adequadamente envolvida no desenvolvimento da ULS, enquanto quase metade (46,2%) sente-se afastada deste processo. Este afastamento mina a confiança e compromete a essência da reforma dos CSP , que assenta precisamente na proximidade e no papel central dos CSP».
O relatório salienta que «o alerta mais sonoro vem das percepções sobre a liderança e o suporte: 58,5% dos profissionais consideram que as lideranças das ULS não dão a devida importância aos CSP e metade (50,6%) entende que as equipas não estão a receber o suporte necessário».
Na avaliação de estruturas da ULS, há uma satisfação total na Guarda, Cova da Beira e Litoral Alentejano (100%). Relativamente ao conselho de administração, a satisfação é plena na Guarda, na Cova da Beira e no Litoral Alentejano. O valor mais elevado de insatisfação regista-se na ULS São José (75%), seguindo-se Alto Ave (63,2%) e Santo António (57,7%).
Sobre a direcção clínica dos Cuidados de Saúde Primários (CSP), há uma satisfação total no Alentejo Central, Litoral Alentejano, Oeste, Guarda e Alto Alentejo. Em contrapartida, Castelo Branco e Cova da Beira não registam qualquer satisfeito (respostas neutras). O valor mais elevado de insatisfação é da ULS Alto Ave (84%).
Quanto aos adjuntos do director clínico dos CSP (A3.10), a satisfação é máxima em Barcelos/Esposende e Litoral Alentejano (100%), e valores elevados em Região de Leiria (92%). Há uma ausência de satisfeitos em Castelo Branco e Cova da Beira. O maior grau de insatisfação verifica-se na ULS Alto Ave (57,9%), seguindo-se São José (43,8%) e Coimbra (34,6%). Sobre o enfermeiro-director, a satisfação é total em Cova da Beira e Litoral Alentejano, havendo ausência de satisfeitos em Castelo Branco.
Na avaliação à Comissão Clínica e de Saúde. a maior satisfação surge na Guarda, Alto Minho e Alto Alentejo (75%), sem satisfeitos em Castelo Branco, Cova da Beira, Litoral Alentejano e Oeste. A maior insatisfação surge em São José (62%) e Alto Ave (53%).
Relativamente às Unidades de Gestão da ULS, o destaque é para a ULS Guarda (100%), seguida de Região de Leiria (76%). Não há satisfeitos no Baixo Alentejo, Cova da Beira e Litoral Alentejano. O valor mais elevado de insatisfação regista-se na ULS São José (69%).
Sobre o SNS24, os níveis de satisfação são muito baixos, com máximo em ULS Alto Alentejo (50%). Há uma insatisfação máxima na ULS Litoral Alentejano e Cova da Beira (100%), e muito elevada em Matosinhos (86%) e Nordeste (83%).

Insatisfação na articulação com as diferentes estruturas da comunidade
No relatório é referido ainda que os coordenadores das USF’s disseram que a sua equipa não se sente muito satisfeita no que respeita à articulação com as diferentes estruturas da comunidade servida pela ULS a que a USF pertence. Em concreto, em relação ao hospital, 66,7% estão insatisfeitos e 33,3% “nem satisfeito/nem insatisfeito”.
Na avaliação em relação ao poder local, o relatório refere que«persistem assimetrias relevantes». Isto é, enquanto se verifica uma satisfação plena na ULS Cova da Beira e na ULS Alto Alentejo (100%), acontece o contrário na avaliação feita pela ULS Litoral Alentejano apresenta 100% de insatisfeitos.
Na ULS da Guarda, a relação com a Câmara também não é muito positiva, havendo 33% que estão muito insatisfeitos e outros tantos “nem satisfeito/nem insatisfeito”. Apenas 16,7% diz estar muito satisfeito. Quanto à relação com a Junta de Freguesia, 50% preferiu responder “nem satisfeito/nem insatisfeito”, 33,3% muito insatisfeito e apenas 16,7% disse estar muito satisfeito. Neste documento também é possível verificar que nas USF’ da ULS da Guarda ocorreram casos de assédio sobre profissionais de saúde (33,3%), violência psicológica (50%) e violência contra a propriedade pessoal (16,7%).




