Depois de «mais de mil jogos, duas dezenas de anos de campos molhados, de sol escaldante, de chuva torrencial, de noites frias e de tardes inesquecíveis», Aires Neves, natural de Manteigas, decidiu pôr um ponto final na sua longa carreira como árbitro de futebol. O jogo de sub-14, entre o Sporting Clube Celoricense B e União Desportiva Pinhelenses, realizado esta semana, foi o último que arbitrou.
Numa nota publicada na sua página pessoal no Facebook, Aires Neves, que trabalha actualmente como assistente técnico no Teatro Municipal da Guarda, escreve que sai «de campo de cabeça erguida, com a consciência tranquila e com muitas saudades já a nascer». «Foram 20 anos de decisões difíceis, de pressão, de protestos, mas também de momentos de grande “fair play”, de respeito e de alegrias partilhadas». «Quando peguei no apito pela primeira vez, há duas décadas, já tinha 40 anos. Tirei o curso tarde e, confesso, foi pena não ter começado mais cedo. Mas mesmo assim, essa paixão chegou na hora certa para marcar profundamente a minha vida», conta o agora ex-árbitro da Associação de Futebol da Guarda.
Na sua opinião, «ser árbitro não é apenas apitar faltas e mostrar cartões» ou «manter a calma quando tudo à volta parece explodir». É muito mais do que isso. «É tomar decisões em frações de segundo, sabendo que nunca conseguiremos agradar a todos. E carregar a responsabilidade de fazer com que o jogo seja justo, mesmo quando as emoções estão à flor da pele», explica.
«Nestes 20 anos tive o privilégio de ver jovens tornarem-se grandes jogadores, de presenciar golos bonitos, de assistir a vitórias emocionantes e, acima de tudo, de conhecer pessoas incríveis: colegas árbitros que se tornaram irmãos, assistentes que correram ao meu lado, delegados, treinadores e tantos outros que dedicam a vida a este desporto», refere ainda Aires Neves, que aproveita para «agradecer especialmente» à sua família que sempre o apoiou e aguentou as suas ausências. «E, em 2025, quando enfrentei o cancro, o vosso amor e apoio foram fundamentais para eu vencer essa dura batalha e regressar ao relvado. Sem vocês, não teria sido possível chegar até aqui», acrescenta o ex-árbitro.
Aires Neves agradece «ao futebol» por lhe ter «ensinado disciplina, humildade, coragem e integridade», bem como a todos os que o criticaram, ajudando-o dessa forma «a melhorar», e aos que o apoiaram, dando-lhe «força para continuar, especialmente nos momentos mais difíceis». E espera que «o apito continue a soar com justiça e paixão nas mãos das novas gerações».




