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Do sonho de Tiago Gonçalves ao ATO de Carlos Chaves Monteiro

Há sonhos que sobrevivem a quem os sonhou. Cerca de 15 anos depois, uma ideia que nasceu entre jovens inquietos da Guarda ganha, de outra forma e por outras mãos, um espaço no coração da cidade.

Há cerca de 15 anos, numa conversa na Ensiguarda, nasceu uma ideia.

Estávamos eu e o Tiago Gonçalves a falar de jovens, de empreendedorismo, de criatividade e daquilo que faltava fazer na Guarda.

Dessas conversas acabaria por nascer a ideias.Guarda, uma associação juvenil ligada ao empreendedorismo e à vontade de fazer acontecer.

Mas se a ideia nasceu numa conversa, foi o Tiago quem verdadeiramente lhe deu alma.

O Tiago era assim.

Inquieto. Sonhador. Agitador.

Daquelas pessoas que olhavam para uma cidade e, em vez de aceitarem aquilo que existia, perguntavam imediatamente:

“E porque não fazer diferente?”

À sua volta juntou um conjunto de outros “idiotas” — no melhor sentido que podemos dar à palavra. Gente suficientemente louca para acreditar que era possível fazer coisas novas.

A Paula Morais, o Marco Conde, o Filipe Pina, o Nuno Martins, entre outros, fizeram parte dessa aventura.

Fizeram-se várias atividades, algumas com bastante dinamismo, sempre com aquela irreverência própria de quem tem mais sonhos do que recursos.

Entre essas iniciativas havia uma de que me recordo particularmente.

Uma feira destinada a artesãos, jovens criadores e pessoas com talento para mostrar.

Não era apenas vender produtos.

Era juntar pessoas.

Dar visibilidade.

Criar oportunidades.

Fazer acontecer.

E havia um sonho que aparecia recorrentemente:

ter um espaço permanente na Guarda onde estes artesãos, criadores, artistas e jovens pudessem trabalhar, mostrar aquilo que faziam, ensinar, aprender e criar.

Uma espécie de casa da criatividade da cidade.

Era um sonho grande para os meios que tínhamos.

Mas sonhar nunca foi propriamente um problema para aquele grupo.

E muito menos para o Tiago.

Infelizmente, o Tiago partiu demasiado cedo.

Não teve oportunidade de ver muitas das coisas que certamente ainda teria imaginado para a Guarda.

Mas há pessoas que, mesmo depois de partirem, continuam presentes nas ideias que lançaram, nas pessoas que mobilizaram e nas sementes que deixaram pelo caminho.

E foi impossível não me lembrar dele quando conheci o novo ATO – Artes, Tradições e Ofícios, criado pela Junta de Freguesia da Guarda.

Quinze anos depois, por caminhos completamente diferentes e sem qualquer ligação institucional entre os dois projetos, encontro ali muito daquele espírito que nós próprios sonhámos naquele tempo.

O ATO nasceu no coração do Centro Histórico da Guarda, na antiga galeria comercial situada entre a Rua Direita e a Rua Dr. António Júlio.

São sete salas que a Junta de Freguesia pretende encher de vida.

Um espaço onde pode funcionar um ofício tradicional, surgir uma ideia contemporânea, realizar-se uma exposição ou um workshop, aprender-se com quem sabe ou simplesmente experimentar algo novo.

A intenção anunciada pelo presidente da Junta de Freguesia, Carlos Chaves Monteiro, é disponibilizar gratuitamente o espaço para acolher a Associação de Artesãos da Guarda, a DISACTO, a ALTARTE, projetos individuais, jovens criativos e outras iniciativas.

E há aqui uma ideia particularmente feliz:

fazer dialogar tradição e contemporaneidade.

Não transformar os nossos ofícios tradicionais em peças de museu, mas procurar novas formas de os valorizar através da criatividade, da inovação e até da tecnologia.

Fala-se em recuperar e valorizar o fabrico tradicional do pão, experimentar produtos derivados do café ou desenvolver novos materiais a partir do centeio.

E é precisamente aqui que este projeto pode ganhar uma dimensão muito maior do que as paredes onde está instalado.

Porque tradição não pode significar apenas passado.

Pode significar economia, empreendedorismo, turismo, criatividade e futuro.

A Junta investiu cerca de três mil euros na requalificação do espaço, recorrendo também ao trabalho dos seus funcionários e de pessoas do Estabelecimento Prisional.

Um investimento relativamente reduzido para aquilo que poderá ser o impacto do projeto.

Naturalmente, inaugurar é sempre a parte mais fácil.

O verdadeiro desafio será manter o espaço permanentemente vivo.

Ter programação.

Atrair jovens.

Envolver escolas.

Dar espaço aos artesãos.

Criar oficinas.

Trazer pessoas à Rua Direita.

Fazer com que quem entra uma primeira vez tenha razões para regressar.

Mas há aqui uma visão com a qual concordo profundamente.

Os centros históricos não se revitalizam apenas recuperando edifícios.

Revitalizam-se trazendo pessoas.

Criando atividade.

Gerando economia.

Dando espaço à cultura e à criatividade.

E esta iniciativa articula-se ainda com o projeto Rua Direita Viva, através do qual a Junta anunciou a criação de vouchers de incentivo às compras no comércio aderente daquela zona.

É exatamente desta articulação que precisamos.

Comércio, cultura, criatividade, artesanato, gastronomia, turismo e animação não podem funcionar como pequenas ilhas.

Precisam de fazer parte de uma estratégia comum.

Mas há outra dimensão nesta história que considero particularmente bonita.

Tiago Gonçalves e Carlos Chaves Monteiro não estiveram politicamente do mesmo lado.

E isso hoje interessa-me muito pouco.

Aliás, talvez esta seja precisamente uma das melhores mensagens desta história.

As boas ideias não devem ter partido.

Os sonhos de uma cidade não são propriedade da esquerda, da direita ou do centro.

E não é preciso perguntar quem teve primeiro a ideia para reconhecer o mérito de quem consegue concretizar alguma coisa boa.

Não estou, naturalmente, a dizer que o ATO nasceu da ideias.Guarda.

Não nasceu.

São projetos diferentes, separados por cerca de 15 anos, com protagonistas, circunstâncias e estruturas completamente distintas.

Mas seria intelectualmente desonesto não reconhecer que existe uma enorme proximidade entre aquele sonho e aquilo que hoje começa a nascer.

Um espaço para os criativos.

Para os artesãos.

Para quem sabe fazer.

Para quem quer aprender.

Para quem tem uma ideia.

Para quem ainda acredita que é possível criar coisas novas na Guarda.

Por isso, este texto é também uma pequena homenagem.

Ao Tiago Gonçalves.

À sua inquietação.

À sua capacidade de sonhar.

À energia com que puxava pelos outros.

E àquele grupo de “idiotas” que acreditou que uma pequena associação juvenil podia mexer um bocadinho com a cidade.

Alguns sonhos ficam pelo caminho.

Outros demoram.

Outros aparecem mais tarde, com outro nome, noutras mãos e numa realidade completamente diferente.

E talvez nem seja importante saber de quem era originalmente o sonho.

Importante é que alguém o faça acontecer.

Por isso, é igualmente justo reconhecer o mérito de Carlos Chaves Monteiro e do executivo da Junta de Freguesia da Guarda.

Tiveram uma ideia simples, aproveitaram um espaço existente, fizeram um investimento relativamente pequeno e deram o pontapé de saída num projeto que pode ter um valor incalculável para a cidade.

Agora é preciso enchê-lo de gente e de ideias.

Gostava muito que o ATO conseguisse transformar-se nesse espaço vivo.

Que um jovem criador possa ali começar uma pequena marca.

Que um artesão transmita o seu conhecimento a uma nova geração.

Que uma escola leve ali os seus alunos.

Que surja um novo produto inspirado nas tradições da nossa terra.

Que um visitante entre por curiosidade e saia dali a conhecer melhor a Guarda.

E, sobretudo, que jovens inquietos continuem a ter espaço para serem “idiotas”.

Porque todas as cidades precisam deles.

Precisam de pessoas que façam perguntas incómodas.

Que tenham ideias aparentemente impossíveis.

Que sonhem antes de haver dinheiro, edifícios ou projetos.

Há cerca de 15 anos, Tiago Gonçalves sonhou.

Hoje já não está fisicamente entre nós para ver este espaço nascer.

Mas talvez exista uma certa justiça poética em perceber que uma ideia tão próxima daquele sonho encontrou finalmente, por outras mãos, um lugar no centro da Guarda.

Carlos Chaves Monteiro e o seu executivo deram o pontapé de saída.

Agora cabe à cidade dar vida ao ATO.

E, onde quer que esteja, quero acreditar que o Tiago teria aquele sorriso de quem olha para isto e pensa:

“Estão a ver? Afinal não era assim uma ideia tão idiota.”

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