Sexta-feira, 24 Abril, 2026
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«Perdi um amigo certo. Um amigo verdadeiro, sensível e criativo»

Opinião de Américo Rodrigues (um dos fundadores do Aquilo Teatro, ex-director do Teatro Municipal da Guarda e actual director-geral das DGArtes) sobre Rui Nuno, que faleceu ontem

O Rui Nuno morreu. Morte anunciada, sem surpresas. Visitei-o há um mês, em Évora,
os olhos a brilharem quando recordámos o tempo da infância. Era meu amigo desde o
primeiro dia que nos encontrámos na escola primária do Bonfim, na Guarda. Ele
morava ao lado da escola, mas vinha todas as manhãs buscar-me a casa, nas
traseiras do Hotel Turismo, para surpresa da minha mãe: “o Ruizinho é mesmo teu
amigo!”. E lá íamos os dois, alegres, a caminho da sala de aula da Dona Delfina. O
melhor seria o recreio, sempre juntos nas brincadeiras.
Mais tarde, criámos o Aquilo- Teatro, a que se juntou o José Neves. A nossa primeira
peça foi “Mário ou eu próprio – o outro”, de José Régio. Eu “fazia” de Mário de Sá-
Carneiro e o Rui Nuno de Fernando Pessoa. Amigos. Sempre.
O Rui trabalhava na Rádio Altitude e também era “dj” numa pequena discoteca, se
bem me lembro. Mas a experiência no teatro Aquilo provocou uma opção de vida: foi
para Évora, frequentou a Escola de Formação de Actores e, logo a seguir, integrou o
elenco do Cendrev durante três décadas.
Politicamente informado, a sua voz era comprometida. Gostava muito de poesia e
declamava-a com muito empenho. E o “bichinho da rádio” nunca o abandonou.
Em Évora representou centenas de personagens, mas de quando em vez, regressava
à sua Guarda. A sua generosidade e desprendimento eram conhecidos. Juntos
criámos vários espetáculos no âmbito do Projéc~. Lembro “A cozinha canibal” de
Roland Torpor e de “Simplesmente complicado” de Thomas Bernhard. Ou como juiz
do “Julgamento do galo” ou como rei D. Carlos nos 100 anos da inauguração do
Sanatório.
Perdi um amigo certo. Um amigo verdadeiro, sensível e criativo. Tínhamos uma
amizade inexplicável que sobrevivia a todos os desafios. Sempre assim, desde os
sete anos.
Ao receber a notícia, fiquei em silêncio durante horas. Parte de mim desapareceu. O
Rui Nuno foi declamar poesia e representar personagens para outras paragens.
Sempre sedutor, talvez à minha espera para irmos juntos para uma qualquer nova
escola.

Américo Rodrigues

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