Sexta-feira, 14 Agosto, 2026
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Náutica na Guarda: uma aposta de futuro ou o futuro Museu das Oportunidades Perdidas?

Há coisas que me fazem espécie. E uma delas é percebermos que temos recursos, equipamentos, conhecimento e pessoas capazes de fazer diferente e, mesmo assim, deixamos tudo parado à espera não se sabe bem de quê.

É o que acontece com o património náutico existente na Escola Secundária Afonso de Albuquerque, na Guarda.

Ao longo dos anos, a escola conseguiu reunir um conjunto muito interessante de equipamentos ligados às atividades náuticas: barcos à vela, embarcações a motor, caiaques e outros meios, aos quais se junta algo ainda mais importante do que o próprio equipamento: conhecimento técnico, experiência acumulada e pessoas com competências nesta área.

O problema é simples: grande parte deste potencial está arrumado.

E um barco arrumado numa escola pode ter valor patrimonial. Mas não cumpre a função para a qual foi adquirido.

É aqui que entra uma pergunta que me parece legítima: como é possível que a Guarda, tendo a Barragem do Caldeirão praticamente às portas da cidade, nunca tenha sido capaz de criar ali uma verdadeira infraestrutura de apoio às atividades náuticas?

Não estou a falar de nenhuma obra megalómana.

Um pequeno centro náutico, com hangar para embarcações, balneários, instalações de apoio e condições de segurança e acesso à água, poderia ser suficiente para começar. Uma infraestrutura que pudesse ser utilizada pela escola, mas também articulada com o Município, associações, clubes, famílias e outras entidades do território.

E aqui está, para mim, o mais incompreensível: não teríamos de começar do zero.

Temos a água.

Temos equipamentos.

Temos conhecimento.

Temos uma escola com experiência.

Temos pessoas no território ligadas às atividades náuticas.

E temos, nas proximidades, um investimento turístico e ambiental importante nos Passadiços do Mondego, que trouxe milhares de pessoas àquele território e demonstrou que é possível criar novos motivos de atração na natureza em redor da Guarda.

Então porque não ligar as peças?

É precisamente isso que tantas vezes nos falta: deixar de olhar para cada investimento como uma ilha e começar a construir uma verdadeira oferta territorial.

Os Passadiços do Mondego não deveriam ser apenas um percurso para fazer e regressar a casa. Podem ser a âncora de uma oferta muito mais ampla: natureza, água, desporto, lazer, restauração, alojamento, atividades de aventura e experiências para famílias.

Um Centro Náutico do Caldeirão poderia encaixar perfeitamente nessa estratégia.

E não apenas para turistas.

Talvez até seja esse o maior erro quando falamos destas matérias. Pensarmos imediatamente no turismo e esquecermos quem cá vive.

Imaginem crianças e jovens da Guarda a aprender vela ou canoagem. Imaginem atividades entre pais e filhos ao fim de semana. Programas escolares, campos de férias, formação, iniciação aos desportos náuticos, atividades para seniores, provas desportivas ou pequenos eventos ligados à natureza.

Imaginem a própria escola a conseguir colocar ao serviço da comunidade o conhecimento que acumulou.

Isto também é qualidade de vida. Isto também é tornar um território atrativo para viver.

E poderia ainda ter outra dimensão importante: aproximar gerações e famílias através do desporto e da natureza.

Falamos muito da necessidade de retirar os mais novos dos telemóveis, de promover hábitos de vida saudáveis e de criar atividades que pais e filhos possam fazer em conjunto. Pois bem: temos um recurso extraordinário a poucos quilómetros do centro da cidade e continuamos a utilizá-lo muito abaixo das suas possibilidades.

Há ainda uma oportunidade económica.

Um centro desta natureza poderia ajudar a criar uma pequena dinâmica ligada ao turismo ativo: aluguer de equipamentos, formação, monitores, eventos, experiências organizadas, ligação a alojamentos e restauração e até parcerias com operadores turísticos.

Não transformaria sozinho a economia da Guarda. Naturalmente que não.

Mas o desenvolvimento de um território constrói-se muitas vezes através da soma de dezenas de pequenas boas ideias que se complementam entre si.

E há uma questão que não pode ser ignorada: a Guarda poderia posicionar-se numa área em que poucos esperariam encontrá-la.

Somos uma cidade de montanha. Precisamente por isso, água, montanha e natureza podem constituir uma combinação diferenciadora.

Não precisamos de tentar copiar aquilo que outros territórios já fazem melhor. Temos de perceber aquilo que podemos fazer de forma diferente.

Por isso, talvez esteja na altura de Município, Escola Afonso de Albuquerque e restantes entidades interessadas se sentarem à mesma mesa e perceberem o que é possível fazer.

Sem guerras institucionais. Sem discutir durante anos quem manda, quem paga ou quem fica responsável por cada metro quadrado.

Os equipamentos são públicos. A escola é pública. A barragem é um recurso do território. O objetivo deve ser servir as pessoas.

Naturalmente, será necessário estudar questões ambientais, segurança, utilização da albufeira, licenciamentos e modelo de gestão. Mas nenhuma dessas questões deveria servir de desculpa para nem sequer se tentar construir uma solução.

Porque aquilo que verdadeiramente me faz espécie é isto:

num território do interior, onde tantas vezes dizemos que nos faltam recursos, não podemos dar-nos ao luxo de desperdiçar aqueles que já temos.

A Guarda tem condições para transformar a Barragem do Caldeirão num espaço ainda mais vivo, complementando os Passadiços do Mondego e criando uma verdadeira oferta de natureza, lazer e desporto.

A Escola Afonso de Albuquerque tem equipamentos e conhecimento que podem ajudar a tornar isso possível.

Falta juntar as duas coisas.

Caso contrário, daqui a alguns anos talvez possamos visitar os barcos, os caiaques e todo aquele equipamento numa exposição e explicar aos nossos filhos:

“Estão a ver? Nós tínhamos tudo isto. Só nunca conseguimos pô-lo a funcionar.”

E nesse dia já não estaremos a falar de uma aposta de futuro.

Estaremos, literalmente, perante um Museu das Oportunidades Perdidas.

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