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A calúnia é como o carvão: quando não queima, suja — os cartilheiros da política

Dizia o velho provérbio que “a calúnia é como o carvão: quando não queima, suja”. E poucas frases descrevem tão bem o estado atual da política portuguesa.

Depois admiram-se que cada vez menos gente queira entrar na política. Admiram-se que os jovens se afastem, que as pessoas sérias recusem convites, que tantos prefiram manter distância de cargos públicos. Mas basta ligar a televisão, abrir um jornal ou percorrer redes sociais para perceber porquê.

Vivemos num tempo em que a suspeição vale mais do que a prova. Em que uma manchete agressiva vende mais do que uma absolvição discreta meses ou anos depois. Abrem-se telejornais e capas de jornais com letras garrafais, insinuações, “fontes próximas”, fugas seletivas de informação e julgamentos em praça pública. E mesmo quando não existe crime, mesmo quando não existe acusação, o dano já foi feito.

Porque a lama cola.

Lembro-me do caso de Paulo Langrouva, antigo presidente da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo. Teve de deixar o cargo de vogal do Instituto do Emprego e Formação Profissional por ser arguido num processo que mais tarde não deu em nada. Inocente. Mas entretanto o lugar já tinha sido perdido, a imagem já tinha sido desgastada e a família já tinha passado pelo peso da exposição pública.

Mais recentemente surge o caso de Carlos Chaves Monteiro. Nem acusado está. Nem arguido. Apenas suspeições lançadas para o espaço público. E basta isso.

Porque muitas vezes o objetivo nem é provar nada. O objetivo é atingir. É desgastar. É impedir alguém de assumir funções. É marcar uma pessoa para sempre.

E receio — oxalá esteja enganado e não tenha uma bola de cristal — que nestes casos o resultado muitas vezes apareça antes da verdade. Não através de uma condenação formal, mas pela simples criação de um ambiente onde determinados nomes deixam, discretamente, de ser opção. Tudo de forma subtil, sem assumir diretamente o afastamento, mas deixando no ar aquela ideia de que “talvez seja melhor evitar”.

E se assim for, estaremos mais uma vez a alimentar, de forma disfarçada, essa “moeda má” de que falava Aníbal Cavaco Silva — a lógica de afastar pessoas não pela competência, não pela justiça, mas pela erosão lenta da reputação.

E tudo isto alimenta aquilo que considero um dos maiores cancros da vida pública portuguesa: os cartilheiros da política.

Pessoas que muitas vezes nunca produziram nada de relevante para o país, nunca criaram emprego, nunca lideraram organizações, nunca construíram soluções — mas que vivem permanentemente em campanhas de destruição pessoal. Movem-se pela ambição cega, pelo ajuste de contas, pela lógica de fação ou, em alguns casos, pela simples maldade.

O mais grave é que utilizam recursos públicos, fugas de informação e até órgãos de comunicação social como armas de combate político.

E depois acontece o inevitável: as pessoas válidas afastam-se.

Porque ninguém quer sujeitar a sua família, os seus filhos, os seus pais ou a sua reputação a este clima de suspeição permanente. Ninguém quer viver num país onde basta um rumor repetido vezes suficientes para deixar marca.

No caso de Paulo Langrouva, a inocência chegou tarde demais para apagar totalmente o impacto causado. No caso de Carlos Chaves Monteiro, receio que o objetivo possa já estar alcançado antes sequer de existir qualquer conclusão formal. Porque nestes processos, muitas vezes, a condenação social acontece primeiro — e a verdade chega demasiado tarde.

E é precisamente por isto que cada vez há menos gente séria disponível para a política.

No fim, sobra aquilo que Aníbal Cavaco Silva dizia sobre a “moeda má expulsar a boa de circulação”. Quando o ambiente político se transforma num espaço de intriga, suspeição e destruição pessoal, os melhores afastam-se naturalmente.

E depois ficamos surpreendidos com a mediocridade instalada.

Mas talvez não devêssemos.

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