A eclosão do conflito envolvendo o Irão reacendeu um debate que muitos governos
preferiam evitar: até que ponto a economia global continua estruturalmente
vulnerável a choques energéticos? A resposta, à luz das reações dos mercados e das
revisões de previsões económicas, é desconfortavelmente clara. Apesar de décadas
de investimento em renováveis, diversificação de fornecedores e avanços
tecnológicos, o sistema económico mundial permanece dependente de um estreito
com apenas algumas dezenas de quilómetros — Ormuz — e de um conjunto de
rotas energéticas cuja fragilidade é bem conhecida.
Os primeiros sinais foram imediatos. O petróleo subiu, em poucos dias, mais de 10%, o
gás natural europeu e asiático disparou mais de 50%, e os mercados financeiros
oscilaram com a volatilidade típica de períodos de incerteza geopolítica. Estes
movimentos não são apenas reações emocionais dos investidores; são indicadores de um
sistema económico que continua a reagir de forma quase automática a qualquer ameaça
ao fluxo energético global.
Do ponto de vista técnico, o Estreito de Ormuz é um single point of failure da economia
mundial. Como recorda a S&P Ratings, cerca de 20% do petróleo global e uma parcela
equivalente do GNL passam por esta rota. O fecho prolongado do estreito — mesmo
que improvável — seria um choque de oferta comparável aos grandes episódios das
décadas de 1970 e 1980. A diferença é que, hoje, a economia global é muito mais
integrada, mais rápida e mais sensível a perturbações súbitas.
As revisões das previsões energéticas ilustram bem esta vulnerabilidade. O Goldman
Sachs aumentou significativamente as projeções para o gás natural e o petróleo,
antecipando perdas de produção no Médio Oriente e um prémio de risco geopolítico
persistente. A análise é tecnicamente sólida: inventários em queda, capacidade de
armazenamento limitada e incerteza prolongada criam um ambiente propício a preços
elevados. Contudo, a dependência de cenários de curto prazo revela a dificuldade
estrutural de modelar choques geopolíticos num sistema económico que privilegia
previsões estáveis.
No plano macroeconómico, o JP Morgan estima que preços elevados até meados de
2026 reduziriam o crescimento global em 0,6 p.p. e aumentariam a inflação em mais de
1 ponto. Embora os seus analistas classifiquem este impacto como “modesto”, a
avaliação merece uma leitura crítica. A economia global pode não entrar em recessão,
mas a combinação de inflação persistente, custos energéticos elevados e políticas
monetárias restritivas cria um ambiente de risco que não deve ser subestimado.
A Europa surge como o caso mais emblemático desta fragilidade. Altamente dependente
de energia importada, enfrenta uma redução do crescimento e uma pressão inflacionista
que limita a margem de manobra do BCE. A Goldman Sachs estima perdas de 0,1 a 0,2
p.p. no crescimento da zona euro, Reino Unido, Suécia e Suíça. A Noruega, exportadora
de energia, é a exceção que confirma a regra: num continente vulnerável, apenas quem
controla recursos energéticos beneficia.
Na Ásia, o impacto é ainda mais direto. A China, que absorve cerca de 80% das
exportações de petróleo iraniano, terá de procurar alternativas num mercado já
pressionado. Economias como Tailândia, Coreia e Filipinas enfrentam deterioração dos
termos de troca, moedas sob pressão e custos energéticos que podem comprometer a
competitividade industrial. A análise dos economistas asiáticos é clara: mesmo um
choque aparentemente pequeno — como um aumento de 10% no preço do crude —
pode representar custos equivalentes a 0,2% do PIB nalgumas economias emergentes.
No Médio Oriente, o impacto económico vai além da energia. A suspensão de voos, a
retração do consumo e o aumento da perceção de risco afetam setores como turismo,
imobiliário e serviços. Países como Bahrein, Kuwait, Qatar e Iraque, dependentes de
Ormuz, enfrentam riscos que podem comprometer estratégias de diversificação
económica que vinham sendo promovidas há anos.
No mercado cambial, o dólar americano (USD) reforça a sua posição como moeda-
refúgio. A resiliência do dólar não é apenas um reflexo da economia americana, mas da
ausência de alternativas credíveis num contexto de volatilidade energética. O euro, por
sua vez, enfrenta riscos adicionais devido à dependência europeia do gás natural, com o
TTF a desempenhar um papel central na deterioração dos termos de troca.
O que este episódio revela, em última análise, é a contradição estrutural da economia
global contemporânea. Por um lado, apresenta-se como um sistema sofisticado,
tecnologicamente avançado e resiliente. Por outro, continua dependente de
infraestruturas vulneráveis, de rotas marítimas congestionadas e de equilíbrios
geopolíticos frágeis. A guerra no Irão pode ou não prolongar-se, mas já expôs uma
realidade incontornável: enquanto o mundo não resolver a sua dependência energética
estrutural, continuará a viver à mercê de choques que, embora previsíveis, parecem
apanhar, sempre, os mercados de surpresa.
Portugal, a energia, e a crise do Estreito de Ormuz
Como referido no artigo anterior, apesar de Portugal não importar nem gás nem petróleo
daqueles países que transportam ou escoam esses produtos por aquele Estreito, a verdade é que, pela forma globalizada como os preços dos produtos energéticos são formados, Portugal será afectado por estes eventos perturbadores do normal funcionamento dos mercados. E vai acontecer quer nos preços dos produtos energéticos – isso logo se comprovou na primeira semana a seguir aos ataques israelo-americanos ao Irão – quer nos preços em geral.
Isto porque aqueles produtos são utilizados por todos os sectores de actividade económica.
De facto, todos eles precisam de energia para produzir e também para transportar os
produtos para os mercados consumidores/clientes. E essa influência vai sentir-se quer nos
grandes centros quer nos lugares mais recônditos da província interior. A sua intensidade vai depender, sobretudo, da duração desta perturbação.
José R. Pires Manso, professor catedrático, Universidade da Beira Interior, responsável do Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social




