Um português foi jantar à Casa Branca e a nação tuga teve uma espécie de orgasmo colectivo, equiparado à orgia descrita por Patrick Süskind no seu livro “O Perfume”. Deslumbramento parolo que resulta de uma gritante falta de conhecimento do que realmente esteve em causa. Opríncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, foi à residência oficial do presidente dos Estados Unidos, de acordo com a imprensa, anunciar um investimento na economia norte-americana de um bilião de dólares (cerca de 860 mil milhões de euros) e reforçar as relações diplomáticas dos dois países. O negócio foi feito ainda antes de o jantar começar e do jogador português, acusado de quatro crimes de fraude fiscal – é necessário relembrar, e que recentemente numa entrevista com Piers Morgan afirmou que Trump é «uma das pessoas de que gosto mesmo porque acho que ele consegue fazer as coisas acontecer e eu gosto de pessoas assim», chegar.
Trata-se da primeira visita de um líder saudita àquele paísdesde o assassinato, em 2018, do jornalista crítico do governo saudita Jamal Khashoggi, exilado em terras do Tio Sam, e que aconteceu apesar de uma investigação da CIA, Agência Central de Inteligência que recolhe e analisa informações estrangeiras para a segurança nacional dos EUA, ter dado o envolvimento de Mohammed bin Salman como provado na morte do jornalista, torturado e esquartejado ainda vivo, diz a imprensa turca.
Em declarações no dia do jantar, que teve honras de telejornal, Donald Trump afirmou que bin Salman «não sabia de nada» e ainda enalteceu a posição do príncipe herdeiro «em termos dos direitos humanos». Como?
Onde um português estar sentado lado a lado de uma cambada de perigosos lunáticos que nada de bom trazem ao Mundo, que desprezam os direitos humanos e tentam branquear regimes autoritários nos pode fazer sentir orgulhosos?
A mim, definitivamente, não me orgulha. Pelo contrário, envergonha-me esta representação de Portugal, na mente da nação tuga, e este povo deslumbrado com a opulência e a futilidade.
Sabem quem me orgulha, entre tantos outros bons exemplos? Rui Costa. Não, não é esse a quem me refiro, é ao renomado neurocientista português, natural da Guarda, presidente e CEO do Allen Institute, uma das mais influentes organizações de investigação biomédica do mundo, reconhecido internacionalmente pela sua investigação sobre o controlo dos movimentos voluntários, que ao longo da sua carreira recebeu vários prémios de prestígio, incluindo o “Director’s Pioneer Award” do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos e a Medalha Ariëns Kappers, e que há dias foi nomeado administrador não executivo da Fundação Champalimaud.
Rui Costa não joga futebol, não tem milhões de seguidores e tenho quase a certeza que recusaria este faustoso jantar na Casa Branca, residência oficial de um presidente americano que cortou significativamente o financiamento à investigação.




