É cada vez mais urgente relembrar 25 de Abril de 1974, dia que marca o início da vida democrática em Portugal. Após mais de meio século de uma ditadura, mais precisamente 48 anos, um golpe militar derrubou o regime liberal-republicano liderado por António de Oliveira Salazar, estratega de uma “Nova Ordem” política, e após a morte deste por Marcello Caetano, e o país acordou com um sentimento que só quem viveu oprimido durante décadas conseguirá descrever. Para a maioria dos portugueses esta desconhecida liberdade fez esquecer a pobreza e iliteracia em que viviam mergulhados. Para as elites, o dia foi negro, uma espécie de eclipse solar que ofuscou o colonialismo caseiro a que estavam habituados, dele tirando benesses e impunidade.
A iliteracia não nos preparou para viver a liberdade com responsabilidade, tornando-nos uns novos-ricos da independência, subvertendo o conceito e aproximando-o perigosamente da anarquia.
A festa foi bonita. O ensino, a justiça, a saúde e a cultura tornaram-se mais inclusivos, a ida das pessoas melhorou, o país sonhou em igualar a Europa civilizada e de primeiro mundo. Só que não. O ensino virou uma espécie de repartição de Finanças, tal é a burocratização e que os professores estão obrigados, em detrimento do objectivo de formar indivíduos, o sistema de saúde foi vilipendiado, a justiça é vesga, o poder económico das famílias retrocedeu e Portugal foi ultrapassado por países, alguns dos quais nunca tínhamos ouvido falar, que aproveitaram as ajudas comunitárias sem chico-espertismos.
Passado pouco mais de meio século da revolução que nos fez sonhar, os agiotas ressabiados reclamam a conta dos foguetes que os emudeceram.
A “Nova Ordem” de Salazar não morreu, manteve-se em banho-maria, qual Bela Adormecida à espera do beijo do Príncipe Encantado. E ele chegou. O Messias e o exército de matarruanos que o idolatram renasceram das cinzas, acordaram a Bruxa Má e espalharam veneno pelas maçãs mais podres, sedentas de vingança.
Se fosse uma fábula, certamente seria escrita pela versão Mr. Hyde* de La Fontaine.
Ainda que com algum desagrado por parte dos discípulos do cidadão mais “ilustre” de Santa Comba Dão, a data é assinalada ano após ano em aldeias, vilas e cidades, canta-se Zeca Afonso, entre outros artistas dissidentes, coloca-se o cravo vermelho – pago a peso de ouro, enaltece-se a liberdade e a democracia em discursos pomposos numa tribuna destinada às elites locais. O povo aplaude, dão-se vivas e termina a peça.
Depois do 25 vem o 26. Os autocratas voltam a ocupar os gabinetes, como se o ontem fosse apenas mais um dia de trocar a máscara de raposa para enganar o rebanho, e a vida continua, cada vez mais próxima do 24 de Abril de 1974.
*Dr. Henry Jekyll, personagem principal da novela gótica “O Médico e o
Monstro” (de 1886), de Robert Louis Stevenson, é um médico respeitado
que, ao tentar separar o seu lado bom do mau, cria uma poção que o
transforma no cruel Mr. Hyde




