Quinta-feira, 2 Julho, 2026
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Os desafios de captar jovens para o movimento dos Bombeiros Voluntários

Há perguntas que devem ser feitas antes de se transformarem em problemas. Uma delas é simples, mas encerra um enorme desafio:

Quem serão os Bombeiros de amanhã?

É uma pergunta que não diz respeito apenas às Associações Humanitárias ou aos Corpos de Bombeiros. Diz respeito a toda a sociedade. Porque, quando alguém liga 112, todos esperamos que exista uma equipa pronta a responder. Mas raramente pensamos em quem garantirá essa resposta daqui a dez, vinte ou trinta anos.

Durante décadas, os Corpos de Bombeiros Voluntários cresceram alimentados por um forte espírito de união! Em muitas famílias, vestir a farda fazia parte da identidade. Os quarteis, basicamente, faziam parte da população, onde crianças cresciam a admirar os Bombeiros e sonhavam, um dia, fazer parte daquela missão.

Essa realidade ainda existe. Mas já não chega.

A sociedade mudou. Mudaram os estilos de vida, as prioridades, as formas de comunicar e as expectativas das novas gerações. E perante essa transformação, o movimento dos Bombeiros Voluntários tem uma responsabilidade inevitável: saber adaptar-se sem nunca perder aquilo que o distingue!

Quando falamos em captar jovens, pensamos muito que isso representa aumentar o efetivo do Corpo de Bombeiros. Mas não é só isso. Não se trata de números. Trata-se de valores. Significa garantir que os valores da solidariedade, da entreajuda e do serviço ao próximo continuam vivos nas próximas décadas.

Ao longo dos meus anos como Bombeiro Voluntário e, atualmente, enquanto Delegado Distrital da JuveBombeiro do Distrito da Guarda, tenho acompanhado de perto esta realidade. Vejo Associações empenhadas, Direções dedicadas. Comandos que acreditam, instrutore incansáveis. E jovens extraordinários!

Mas vejo também dificuldades que exigem reflexão e, sobretudo, ação! A primeira, talvez seja a mais evidente. O tempo!

Os jovens vivem hoje rodeados de estímulos permanentes. A escola exige mais. As atividades extracurriculares ocupam grande parte dos horários. As tecnologias e as redes sociais disputam diariamente a sua atenção. Existem inúmeras formas de ocupar os tempos livres, muitas delas imediatas, individuais e sem grandes compromissos.

Perante esta realidade, o voluntariado não concorre com nenhuma atividade, concorre com um modelo de sociedade que valoriza cada vez mais a rapidez, o conforto e a recompensa imediata!

Ser Bombeiro representa exatamente o contrário. É assumir responsabilidades quando seria mais fácil ficar em casa. É cumprir horários! É aceitar regras, trabalhar em equipa e colocar o bem coletivo acima do interesse individual! E talvez seja precisamente por isso que o voluntariado continua a ser uma das maiores escolas de formação humana que existem!

Outro desafio prende-se com a imagem que muitos jovens têm da atividade de Bombeiro. Para muitos, ser Bombeiro resume-se aos incêndios florestais ou aos grandes acidentes que surgem nos noticiários. Naturalmente, essas missões fazem parte da nossa realidade. Mas representam apenas uma pequena parte daquilo que verdadeiramente fazemos.
Todos os dias existem Bombeiros a prestar socorro pré-hospitalar, a desenvolver ações de prevenção, a promover educação para o risco, a apoiar populações vulneráveis e a intervir em inúmeras situações que raramente chegam às notícias.
Aquilo que fazemos diariamente é muito maior do que aquilo que normalmente se vê. Se queremos atrair mais jovens, temos também de comunicar melhor! Temos de abrir mais os quartéis à comunidade. Mostrar quem somos. Explicar o que fazemos. E, sobretudo, mostrar porque vale a pena fazer parte desta missão! Porque ninguém se apaixona por aquilo que não conhece!

É precisamente aqui que as Escolas de Infantes e Cadetes assumem um papel absolutamente decisivo!
Na minha opinião, representam o maior investimento estratégico que o movimento dos Bombeiros Voluntários pode fazer. Não só porque formam futuros Bombeiros! Mas porque criam ligações emocionais que dificilmente se esquecem.
Uma criança que cresce dentro de um quartel aprende sobre disciplina. Aprende responsabilidade. Aprende espírito de equipa. Aprende a respeitar a farda, os símbolos, a história e os valores da associação! Aprende, sobretudo, que ajudar os outros não é uma obrigação. É uma escolha. E essa escolha pode marcar uma vida inteira!

Nenhuma campanha publicitária consegue substituir aquilo que um jovem sente quando veste pela primeira vez a farda de Infante ou de Cadete, participa numa atividade, aprende com os instrutores e percebe que faz parte de algo muito maior do que ele próprio.

Mas também estas escolas enfrentam desafios. Precisam de instrutores motivados e preparados. Precisam de Comandos que acreditem no seu trabalho. Precisam de direções que apostem verdadeiramente na formação das novas gerações. Precisam de recursos. E precisam, acima de tudo, de continuidade! Porque criar uma Escola de Infantes e Cadetes é relativamente fácil. O verdadeiro desafio é fazê-la crescer ano após ano!

Enquanto Delegado Distrital da JuveBombeiro do Distrito da Guarda, tenho tido o privilégio de contactar com diversas Escolas de Infantes e Cadetes. Em todas, encontro jovens curiosos, empenhados e com uma enorme vontade de aprender. É esse contacto que me permite acreditar no futuro! Mas esse futuro não nasce por acaso. Constrói-se! Com trabalho. Com planeamento. Com inovação. E com pessoas que acreditam que investir nos jovens nunca é uma despesa. É a melhor garantia de futuro que qualquer instituição pode ter.

Não podemos esperar que os jovens descubram sozinhos o caminho do voluntariado. Somos nós, Bombeiros, diretores, autarcas, professores, pais e comunidade que temos de criar oportunidades para esse encontro acontecer. Uma visita de uma escola ao quartel. Uma demonstração pública. Uma atividade aberta à população. Um projeto desenvolvido em parceria com os estabelecimentos de ensino. Tudo isso, pode representar o primeiro contacto de uma criança com o universo dos Bombeiros. E, por vezes, basta um único dia para nascer uma vocação que dura toda uma vida!

Naturalmente, nem todos aqueles jovens chegarão ao quadro ativo. Nem precisam! Se a passagem pelo Corpo de Bombeiros lhes ensinar responsabilidade, solidariedade, cidadania e espírito de equipa, então o objetivo já terá sido amplamente alcançado. Porque formar Bombeiros é importante. Mas formar cidadãos é indispensável!

O futuro dos Bombeiros Voluntários dependerá, em grande medida, da nossa capacidade para inspirar as novas gerações. E a inspiração não nasce dos discursos. Nasce do exemplo. Da proximidade. Da dedicação. Da paixão com que vivemos esta missão.

As emergências continuarão a acontecer! Mas aqui, a verdadeira questão é outra:
Quando a próxima sirene tocar, daqui a vinte anos, haverá alguém para responder?
A resposta começa na forma como olhamos para os nossos jovens! Porque captar uma nova geração de Bombeiros é garantir que Portugal nunca ficará sem pessoas dispostas a deixar tudo para salvar quem nem sequer conhecem. E enquanto existirem jovens capazes de acreditar nessa missão, haverá esperança. A responsabilidade de os inspirar, essa, é nossa!

Bruno Coutinho
Delegado Distrital – JuveBombeiro Distrito da Guarda

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