Há cerca de um ano escrevi sobre o Guarda Cup, a Guarda Up e a Escola Feminina da Guarda, falando da força coletiva que move a nossa cidade. Um ano depois, voltei a participar no Guarda Cup e confirmei aquilo que já sentia: há projetos que começam por carolice, crescem com trabalho, ganham alma com as pessoas e podem transformar-se em verdadeiras marcas de uma cidade.
Para mal dos meus pecados, o meu filho não gosta de futebol. Mas, felizmente, havia insufláveis e isso ajudou a compensar a jornada. Ainda assim, mesmo para quem não vive o futebol por dentro, é impossível ficar indiferente ao que ali se constrói.
O Guarda Cup voltou a ser notável. Cada vez melhor, mais organizado, mais participado e, atrevo-me a dizer, provavelmente o melhor evento deste género no distrito da Guarda. E com uma nota importante: tudo isto acontece com um custo relativamente baixo para o Município da Guarda, sobretudo quando comparado com outros eventos de natureza semelhante.
Mas o que mais impressiona não são apenas os jogos, os campos cheios ou a logística. O que verdadeiramente marca é a força coletiva de um grupo de pais do NDS que, ano após ano, coloca tempo, energia, orgulho e coração neste projeto. Pais que não se limitam a assistir da bancada. Pais que organizam, carregam, montam, desmontam, resolvem problemas e fazem acontecer.
É gratificante ver a evolução do Guarda Cup e perceber o orgulho com que aqueles pais do NDS fazem este evento. Mas também é importante deixar uma nota: as forças vivas da cidade devem abraçar mais este projeto. O Guarda Cup começou por carolice, mas pode vir a ser mais uma marca da Guarda.
Temos de perceber que os pais estarão naturalmente mais motivados e disponíveis enquanto os seus filhos participarem. Por isso, para além de apoiar mais, é necessário garantir continuidade. Criar estrutura. Dar condições. Não deixar que este fenómeno coletivo, nascido do sonho de uns pais carolas, termine daqui a uns anos apenas porque faltou visão, apoio ou passagem de testemunho.
Depois não nos podemos queixar de que “já não há projetos”, “já não há dinâmica” ou “já não há gente disponível”. Há. Está ali. Só precisa de ser reconhecida, acarinhada e ajudada a crescer.
Nesse mesmo dia fui também ao baile das Lameirinhas, o meu bairro, um baile que frequento desde que cheguei à Guarda, há 29 anos. É verdade que já não tem o mesmo fulgor de há 20 anos. Os tempos mudam, as pessoas mudam, os hábitos mudam. Mas há coisas que resistem ao tempo: a dedicação, a memória e o sentido de pertença.
E nisso o Grupo Desportivo e Recreativo das Lameirinhas merece uma justa homenagem. Ano após ano, lá estão eles. A organizar, a preparar, a assar sardinha, a levar a entremeada, a manter viva uma tradição que faz parte da identidade do bairro.
Aqui é impossível não falar dos Carvalhinhos. Hoje mais velhos, com novas gerações à volta, mas com a mesma dedicação à causa. Alguns já partiram, outros continuam presentes, mas todos deixaram marca. Os Carvalhinhos estão para as Lameirinhas como as Lameirinhas estão para a Guarda. Aliás, o nome quase se confunde com o bairro.
Sempre simpatizei com o Esmeraldo, talvez o que conheço melhor. Um político hábil, daqueles à maneira antiga, com quem também aprendi muito. Mas esta história não é apenas de uma família. É também dos Tiagos Torres, dos Artur Batistas e de tantos outros voluntários que fazem parte da organização que, muitas vezes longe dos holofotes, representam essa força silenciosa e essencial da Guarda: a força das suas coletividades, das suas associações e das suas gentes.
O GDR Lameirinhas, para além do trabalho social que desenvolve, também nos deu e continua a dar alegrias no futsal, sendo uma referência no distrito. Mas, acima de tudo, é uma casa de comunidade. Uma casa onde se aprende que uma coletividade não é apenas uma sede, uma direção ou uma equipa. É memória, é trabalho, é bairro, é pertença.
No fundo, o Guarda Cup e as Lameirinhas falam-nos da mesma coisa: da capacidade que a Guarda ainda tem de se organizar, de se juntar, de fazer acontecer e de transformar boa vontade em obra feita.
A Guarda tem muitas vezes dificuldade em reconhecer o que nasce dentro dela. Mas estes projetos mostram-nos que a nossa maior riqueza continua a estar nas pessoas. Nos pais do NDS que fazem torneios. Nos voluntários que mantêm bailes. Nas coletividades que não desistem. Nos bairros que resistem. Nas famílias que passam testemunhos. Nos que ficam, trabalham e fazem.
E no fim, quando participamos, ajudamos, aparecemos e valorizamos, deixamos de ser apenas espectadores.
No fim, somos todos Guarda Cup.
E, nas Lameirinhas, somos todos Carvalhinhos.




