A Câmara Municipal da Guarda anunciou esta tarde que a autarquia está «formalmente na corrida ao título de Capital Portuguesa da Cultura em 2028». Uma decisão que vai de encontro à sugestão feita há dois meses pela vereadora da coligação PSD/CDS/IL, Alexandra Isidro, que na altura defendeu que o Município da Guarda deveria aproveitar o trabalho que tinha sido desenvolvido aquando da candidatura da Guarda a “Capital Europeia da Cultura”, que viria a ficar pelo caminho mas que, recordou «deixou um importante património estratégico e programático, bem como projectos que permanecem activos, como a Orquestra Académica Filarmónica Portuguesa». Questionado no final da reunião ocorrida em meados de Maio último sobre esta proposta, o presidente da Câmara, Sérgio Costa, disse aos jornalistas que «os serviços estão a analisar» essa questão e que «a seu tempo» falaria «sobre isso».
Hoje à tarde, o município informou que a Guarda se candidata a Capital Portuguesa da Cultura 2028. Numa nota à imprensa, a autarquia evidencia que se trata de um «projecto estratégico que visa posicionar a Guarda como espaço de criação, participação, identidade e desenvolvimento».
«Sob o conceito de cidade “guardiã”: guardiã da história, da memória e da identidade, mas aberta à modernidade e ao futuro, a candidatura propõe uma visão assente na relação entre tradição e inovação, afirmando-se como instrumento essencial para o desenvolvimento da política cultural do concelho e de todo o distrito da Guarda», informa o município. E acrescenta que «um dos eixos estruturantes da candidatura é a condição raiana da Guarda e a sua ligação umbilical às comunidades e municípios do outro lado da fronteira, em Espanha», e que, «por essa, os municípios da raia espanhola vão integrar a candidatura como parceiros».
Sérgio Costa chegou a estar confiante na candidatura da Guarda a Capital Europeia da Cultura mas despois de ter sido chumbada demarcou-se e considerou que era «manca»

«Estamos serenos, mas confiantes, porque queremos ganhar, de facto, este desafio, esta candidatura. Passar, acto contínuo, à “shortlist” e depois ambicionar, verdadeiramente, podermos ser a Capital Europeia da Cultura em 2027», foram estas as palavras do presidente da Câmara da Guarda, aquando da apresentação pública do dossiê da candidatura “Guarda 2027 – Capital Europeia da Cultura”, que decorreu, no dia 4 de Março de 2022, no Grande Auditório do Teatro Municipal da Guarda (TMG) e que serviu como «ensaio geral» da apresentação ao júri europeu, cuja audição estava agendada para 9 de Março desse ano, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Das 12 candidatas, o júri escolheu Aveiro, Braga, Évora e Ponta Delgada para passarem à fase seguinte.
Ao ser afastada a Guarda da corrida a Capital Europeia da Cultura 2027, o autarca viria a demarcar-se do processo lembrando que o executivo que liderava não teve «qualquer responsabilidade na gestão», nem participou «na escolha dos seus responsáveis ou sequer na sua programação». «Durante os cinco meses ou os quase cinco meses em que assumimos a gestão do executivo municipal da Guarda, limitámo-nos a ser apenas meros observadores de todo o processo da candidatura. Não tivemos qualquer responsabilidade na sua gestão ou decisão. Nada alterámos ou sequer influenciámos. Mesmo assim, fomos defender institucionalmente o município da Guarda perante o júri internacional que decidiu o afastamento da candidatura», justificou.
Considerou que a candidatura da Guarda era «manca», porque lhe faltava «os criadores e o público». «As entidades e associações foram completamente arredadas deste processo e os próprios guardenses não foram mobilizados para este tão alto desígnio de afirmação da cultura de todo um território», apontou o presidente da Câmara. O autarca lamentou «que depois de mais de um milhão de euros gastos, pouco ou nada tenha ficado na memória dos guardenses». Apesar da decisão do júri, anunciou que o município iria redefinir a sua política de cultura.
Em entrevista ao já extinto jornal “Terras da Beira”, Sérgio Costa afirmou, em Outubro de 2022, que lamentava que «se tenha gasto tanto dinheiro numa mão cheia de nada em termos de candidatura», embora não tenha apresentado valores. Adiantou que o executivo municipal iria rever alguns dos projectos que constavam da candidatura. «Vamos paulatinamente revisitar alguns daqueles projectos e faremos aqueles que considerarmos que podem ser facilmente exequíveis sob o ponto de vista técnico e financeiro», referiu.
De relembrar que, aquando da apresentação pública da candidatura em Março de 2022 no TMG, Sérgio Costa disse aos jornalistas que o investimento feito com a candidatura «é muito avultado», não teve «qualquer comparticipação» e a verba foi «proveniente da tesouraria directa dos cofres do município». Nesse dia, o então director-executivo da candidatura, Pedro Gadanho, ex-diretor do MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (Lisboa), disse acreditar que a mesma seria vencedora e, se isso se confirmasse, era «algo» que podia «ser transformador» para o território, recordando que a candidatura envolvia, além da Guarda, 18 municípios, dois dos quais espanhóis (Cuidad Rodrigo e Béjar). Em termos de financiamento, o orçamento global da candidatura estimado ultrapassava os 53,8 milhões de euros, que Pedro Gadanho entendia não ser «uma despesa» mas sim «a oportunidade de trazer para esta região 53 milhões de euros».
Relatório apontou diversas falhas à candidatura da Guarda
O júri que avaliou a candidatura da Guarda a Capital Europeia da Cultura 2027 apontou diversas falhas ao documento, entre as quais, falta de dimensão europeia, falta de implementação, falta de clareza, falta de experiência em acolher eventos internacionais de grande porte e programas sub-desenvolvidos. O relatório, disponível em versão inglesa, é especialmente crítico quanto à Dimensão Europea e ao Programa Artístico e Cultural, dois dos seis critérios em avaliação.
Os doze especialistas internacionais, dez nomeados por instituições da União Europeia e dois pelo Ministério da Cultura português, consideram que «as experiências adquiridas através deste envolvimento e empenho regional nesta fase de pré-selecção podem revelar-se muito benéficas se se optar por perseguir oportunidades europeias alternativas que melhor se adequem ao objectivo destas relações regionais e às suas legítimas aspirações de revitalização territorial».
Na conclusão do relatório são apresentadas falhas em praticamente todos os seis critérios para avaliação: Contribuição para a Estratégia Cultural a Longo Prazo, Programa Artístico e Cultural, Dimensão Europeia, Alcance e Desenvolvimento de Públicos, Gestão e Capacidade de Execução. De salientar que, concretamente em relação ao programa itinerante entre os 19 municípios envolvidos, o júri considera que «apresenta alguns riscos, pois depende de um bom modelo de transporte (público) para ser amplamente um sistema de comunicação acessível e eficiente, que ainda precisa ser desenvolvido». Sobre a capacidade de execução, entende que «a cidade tem pouca experiência em acolher eventos internacionais de grande porte» e que a capacidade de alojamento, na cidade e na região, «não são suficientemente descritas».




