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A geração do “porquê” pode tornar-nos melhores

Talvez os jovens não questionem mais porque respeitam menos. Talvez questionem mais porque querem compreender melhor.
“Porque é que fazemos assim?”; “Porque é que esta regra existe?”; “Porque não podemos fazer de outra forma?”
Quem trabalha com crianças e jovens conhece bem estas perguntas. E há uma resposta que continua a ser tentadora: “Porque eu estou a mandar.” Resolve o momento, é verdade! Mas não educa o futuro.
Os jovens de hoje cresceram num mundo onde a informação está permanentemente disponível. Pesquisam, comparam, questionam e procuram respostas quase instantaneamente. É natural que tragam essa realidade para dentro dos nossos quartéis e nós podemos olhar para isso como um problema, ou podemos transformá-lo numa oportunidade.
Nas Escolas de Infantes e Cadetes trabalha-se dentro de instituições onde existem regras, disciplina, hierarquia, responsabilidade e procedimentos que têm de ser respeitados. E ainda bem. Mas ensinar a respeitar uma regra não nos impede de explicar a razão pela qual ela existe. Pelo contrário. Até porque quando um jovem compreende o “porquê”, normalmente percebe melhor o “como”.
Se explicarmos porque é importante chegar a horas, não estamos só a exigir pontualidade. Estamos a ensinar respeito pelos outros e um compromisso com os colegas. Se explicarmos porque existe uma hierarquia, não estamos só a ensinar quem tem autoridade. Estamos a explicar o que é organização, responsabilidade e capacidade de decisão. Se explicarmos porque determinada tarefa tem de ser executada de uma forma específica, não estamos apenas a pedir que seja cumprida. Estamos a ensinar.
E existe uma diferença importante entre cumprir porque alguém mandou e cumprir porque se compreende a responsabilidade associada àquilo que estamos a fazer. Talvez seja aqui que a geração do “porquê” nos coloque também um desafio enquanto adultos. Obriga-nos a saber explicar aquilo que exigimos. E isso é um fator positivo. Porque quem ensina, também deve saber porque ensina. Quem estabelece uma regra deve compreender o seu propósito. E quem lidera deve estar preparado
para fundamentar as suas decisões sempre que o contexto o permita.
Naturalmente, existem limites. Na atividade de Bombeiro haverá momentos, particularmente em contexto operacional, em que uma decisão tem de ser tomada e uma ordem legítima tem de ser cumprida com prontidão e disciplina. Em contexto operacional, mas aqui estamos a falar de formação de crianças e jovens.
É precisamente nesse contexto de formação em que devemos perguntar, explicar, corrigir e esclarecer. É aí que preparamos alguém para, quando chegar o momento de agir, compreenda aquilo que está a fazer e a responsabilidade que tem nas mãos.
Também não significa que todas as perguntas tenham razão. Nem que todas as sugestões dos jovens sejam aplicáveis.
O facto de estarmos disponíveis para ouvir, não significa automaticamente estarmos a concordar. Mas é um sinal de respeito, de apoio, de proximidade.
No fundo, não me preocupa uma geração que pergunta “porquê?”. Preocupar-me-ia mais com uma geração que deixasse de perguntar. Porque aqueles que hoje questionam, serão, provavelmente, alguns dos que amanhã terão de decidir. E terão, por sua vez, de responder às perguntas da geração seguinte. Por isso, talvez a nossa responsabilidade não seja ensinar os jovens a fazer menos perguntas. Talvez seja ensiná-los a fazer as perguntas certas, no momento certo, e a saber também ouvir as respostas.
E nós, adultos, precisamos de ter conhecimento, coerência e humildade suficientes para responder. Até mesmo para dizer, quando for necessário: “Não sei. Vamos procurar perceber.” E aí, também mostramos segurança suficiente para reconhecer que ninguém sabe tudo e que também nós continuamos a aprender.
A geração do “porquê” pode dar-nos mais trabalho. Pode obrigar-nos a explicar melhor. A preparar melhor. A questionar alguns métodos. E, por vezes, até a reconhecer que determinada forma de fazer pode já não ser a melhor.
Talvez a geração do “porquê” nos dê mais trabalho. Mas talvez seja precisamente ela que nos obrigue a fazer melhor. A explicar melhor. A ensinar melhor. A liderar melhor. E, quando necessário, a ter a coragem de reconhecer que também nós podemos aprender.
Uma instituição preparada para o futuro não teme as perguntas das novas gerações. Prepara se para lhes dar respostas à altura do futuro que lhes quer entregar. Porque o futuro dos Bombeiros não se improvisa, constrói-se!

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