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Vereador e deputados socialistas questionam Governo sobre a alteração do uso do espaço destinado ao cinema antes de concluído o procedimeno legal e administrativo

Na sequência da cedência do espaço das salas de cinema do La Vie da Guarda, encerradas em finais de Dezembro, ao grupo dinamarquês para a instalação da loja “Normal”, alegadamente antes de estar concluído o procedimento legal e administrativo, têm surgidos várias questões, nos últimos dias, sobre este assunto, vindas da parte do vereador do PS no município local, António Monteirinho, e também de seis deputados socialistas da Assembleia da República, tendo estes últimos dirigido as perguntas ao Ministério da Cultura, Juventude e Desporto. tendo em conta o desenrolar destes acontecimentos, o jornal “Todas as Beiras” solicitou esclarecimentos à Widerproperty, que gere o centro comercial, sobre o pedido de desafectação das salas e se há a garantia de ter sido reservada uma sala para cinema, como solicitou a autarquia, mas até agora ainda não houve resposta.

Na passada Segunda-feira, António Monteirinho recordou uma notícia do jornal “Observador” que dava conta que a empresa gestora do centro comercial que submeteu ao Ministério da Cultura um pedido de desafectação do espaço, mas a tutela não tomou decisão. O socialista questionou o presidente da Câmara, Sérgio Costa, se a autarquia tinha dado o aval, tendo este respondido que deu parecer com a condição de que, pelo menos, devia ser preservada uma sala de cinema. Ao que o jornal “Todas as Beiras” sabe, uma das salas não foi ocupada, não havendo ainda qualquer interessado em explorar o espaço.

Hoje, seis deputados do PS, entre os quais Aida Carvalho, eleita pelo círculo da Guarda, questionaram a ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, sobre a alteração de uso do espaço do cinema La Vie, «numa altura em que o procedimento legal e administrativo necessário à respectiva alteração de uso ainda não se encontrava concluído». No entender dos socialistas, «o encerramento ou a descaracterização de equipamentos culturais com esta natureza não constitui apenas uma alteração de uso de um espaço comercial, tendo também impacto directo no cumprimento do objectivo de democratização do acesso à cultura, na coesão territorial e na preservação de respostas culturais de proximidade». Consideram também que, «em concelhos do Interior, onde a oferta cultural tende a ser mais escassa e mais vulnerável, a perda de salas de exibição cinematográfica representa um factor adicional de isolamento e de desigualdade no acesso das populações à fruição cultural».

No documento dirigido ao Ministério da Cultura, que também foi enviado ao jornal “Todas as Beiras”, os deputados questionam se o Governo considera que «a utilização do espaço para outra actividade comercial antes da conclusão do procedimento de alteração de uso produz consequências jurídicas ou administrativas? Em caso afirmativo, quais, e que medidas tenciona adotar neste caso?». Querem também saber se a Inspecção-Geral das Actividades Culturais (IGAC) foi «chamada a intervir ou a averiguar os factos» e, «em caso caso negativo, por que motivo».

Aida Carvalho e os restantes cinco deputados (Paulo Lopes Dias, Dália Miranda, Hernâni Loureiro e Margarida Afonso) colocam ainda a questão se «tenciona o Governo adoptar alguma medida perante o sucedido» e «que medidas prevê o Governo implementar para evitar que situações semelhantes se repitam no futuro, assegurando o cumprimento dos procedimentos legais aplicáveis». Por último, interpelam ainda o Governo sobre que medidas pretende adoptar «para garantir o acesso ao cinema às populações do Interior e mitigar a perda de oferta cultural decorrente do encerramento de salas de cinema nestes territórios».

Salas de cinema do La Vie da Guarda encerraram no passado dia 26 de Dezembro

De recordar que, como o jornal “Todas as Beiras” (TB) noticiou em primeira mão no passado dia 26 de Dezembro, que as quatro salas de cinema Cineplace tinham encerrado logo a seguir ao Dia de Natal e que oficialmente a Widerproperty, empresa gestora do centro comercial, informou, num comunicado colado no tolde da entrada do cinema, que seria «por tempo indeterminado, por motivos técnicos e operacionais da própria empresa que detém a marca Cineplace».

O jornal pediu na altura mais esclarecimentos à administração, tendo, cerca de uma semana depois, a 5 de Janeiro, informar que «o contrato de exploração do espaço de cinemas com o operador Cineplace chegou ao seu termo, pelo que as salas se encontram encerradas». Em comunicado enviado ao TB, a administração do La Vie esclareceu que «o modelo de negócio actualmente exigido implica a garantia de números mínimos de afluência de espectadores, condição que tem sido muito difícil de atingir de forma consistente, nos últimos anos, tendo estas sido as razões apontadas como justificativas do Plano Especial de Revitalização (PER) apresentado pelo operador dos cinemas neste centro comercial».

«A administração do La Vie lamenta este facto, sendo mais um encerramento a somar aos diversos casos ocorridos em 2025, que em muito resultam da alteração dos hábitos de consumo, e do crescimento do mercado das plataformas de streaming, que impactam de forma directa no sector da exibição cinematográfica», refere ainda a administração do La Vie, que «reafirma o seu compromisso em continuar a trabalhar na valorização da oferta do centro comercial, tendo em curso o estudo de novas soluções, e conceitos, que possam responder às expectativas da comunidade local e contribuir para a dinamização da cidade da Guarda e da região».

Desde a abertura do centro comercial (na altura com a designação de Vivaci) em 2008 que funcionavam quatro salas de cinema sob a alçada da Nos Lusomundo, tendo encerrado em Junho de 2016. Um mês depois, as salas viriam a reabrir sob a alçada do Cineplace, impedindo, assim, que a Guarda ficasse novamente sem espaços exclusivos para a exibição de filmes, como tinha acontecido em 1987, quando fechou portas o emblemático “Cine-Teatro da Guarda” e, em 2006, com o Cine-Estúdio Oppidana.

Avoluma-se a crise no negócio das salas de cinema

A crise neste tipo de negócio em Portugal tem-se avolumado nos últimos meses. Desde o início de 2025 e até Outubro desse ano, Portugal já tinha perdido 37 ecrãs de cinema e antes do final de Dezembro ainda do ano anterior de poderiam chegar a um total de 46, como noticiou recentemente o jornal “Público”, fruto do encerramento dos multiplex, ou conjuntos de multisalas, da Nos, Cineplace e UCI nas localidades da Maia, Vila Nova de Gaia, Viseu, Tavira, Guia, Seixal e Funchal. NO final de 2025, confirmou-se também o encerramento das 12 salas da Nos Cinemas, que funcionavam no complexo Alavaláxia, em Lisboa.

Em Outubro do ano passado, a agência Lusa tinha noticiado o fecho dos cinemas do MaiaShopping e do Tavira Grand Plaza, ambos da Nos Cinemas. Vieram depois a fechar, em Setembro, as seis salas do Fórum Viseu, também da Nos Cinemas. Viseu contava até essa altura com três recintos, responsáveis por levar cinema a 77.501 espectadores; em funcionamento estavam apenas dois, explorados pela Nos, precisamente as seis salas do Fórum Viseu e as restantes seis no shopping Palácio do Gelo; o terceiro recinto contabilizado pelo ICA é o Cinema Ícaro, encerrado desde 2005 e alvo de várias iniciativas de cidadãos apelando à autarquia para que fosse reactivado.

Até ao final de 2024, segundo dados reportados ao Instituto do Cinema Audiovisual (ICA), existiam 174 concelhos portugueses sem sessões de cinema. De acordo com os dados consultados pelo TB, nesse ano, a afluência às oito salas de cinema que existiam no distrito da Guarda, atingiu os 37.911 espectadores, resultando numa receita bruta de 178.819 euros.

Questionado pelo jornal “PÚBLICO” em Outubro sobre a sua posição perante este encolhimento da oferta e aumento de assimetrias regionais, o ICA respondeu que estava a acompanhar a situação da exibição e manifestou a convicção de que «a solução terá de envolver não só o Estado central através da administração indirecta do ICA, mas também os poderes locais», conforme cada «situação concreta».

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