Sexta-feira, 7 Agosto, 2026
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Cicatrizes

À saída da Guarda apanho a N18-1, direção Vale de Estrela, Famalicão, Valhelhas. A estrada da Bezerra, como lhe costumamos chamar…

É o reencontro com a velha estrada, tantas e tantas vezes percorrida. Desde que me conheço que a percorro e quase me apetece jurar ainda a ter percorrido sem piso betuminoso.

Entronco depois com a N232, aquela a que chamo a mais bela estrada do mundo, agora amputada de umas centenas de metros, mágicos, para quem como eu adora conduzir e se lembra de aí ver passar, miúdo então, nos anos 60, vedetas do volante.

Percorro-as com a calma que o ar condicionado do carro permite, num dia quente de verão, sem o frenesim e a pressa de outras vezes, aproveitando cada curva, melhor, cada centímetro, para anamneses de histórias vividas e ouvidas de viagens dramáticas, românticas, ansiosas, de negócios ou de fugas para uma vida melhor.

No rádio as notícias falam-me de incêndios que vão lavrando no outro lado do distrito ou mais a norte do país.

A paisagem que me acompanha vai-me mostrando as cicatrizes do fogo que por aqui andou há poucos anos. Em cada encosta notam-se as regueiras de quem esventrou a terra para limpar o que o lume não queimou e que a água veio destacar.

Antes de Sameiro olho com nostalgia para o que foi uma pista de ski artificial e lembro-me do Parque de campismo que o concelho não tem e merecia há décadas.

Por todo o lado ouvem-se apelos à limpeza de terrenos para que o fogo não venha de novo atormentar as vidas e levar o que restou.

A calma com que percorro as estradas da minha vida, mostra-me valetas onde o mato e pasto seco se acumulam sem que ninguém lhe chegue um corte, até antes de Manteigas.

Desfaço a curva que me leva à reta da pedreira. A vila surge no seu esplendor guardada lá no alto pelo Cruzeiro em São Sebastião.

Sei que estou perto da casa mãe.

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