A Associação “O Genuíno Cobertor de Papa”, que nasceu em Maio de 2018 em Maçainhas, concelho da Guarda, tem lutado pela preservação de um produto tradicional, feito em pura lã, que durante muitos anos representou o sustento de muitas famílias. Mas o surgimento desta associação não foi do agrado de todos e a sua presidente, Maria do Céu Reis, foi alvo de um processo no tribunal, que só veio ficar concluído ao fim de seis anos. Disso dá conta a dirigente num texto publicado na página oficial do Facebook da associação.
«Foram 6 anos, em tribunal, num processo em que o que estava em causa, era a defesa do Cobertor de Papa genuíno, o património mais identitário da Guarda», refere, acrescentando que «foram 6 anos como arguida, muitas idas ao tribunal a Lisboa, no meio de tempestades, com imensos afazeres: participação em feiras e certames, recebendo visitas, produzindo cobertores, preparando e expedindo encomendas, comprando materiais, tratar de logística, a vários níveis, cumprimento de obrigações fiscais e institucionais, deslocações ao estrangeiro». Foram, salienta, «imensas situações» que foi resolvendo «com muito esforço e trabalho» e conseguindo estar disponível e «fazer acontecer cultura».
«Fez-se justiça e a verdade venceu, tendo sido provado que imensos consumidores foram enganados com um produto que falsamente designavam de cobertor de papa não passando de uma fraude e um ataque despudorado ao nosso património e à verdade factual. Sempre acreditámos neste desfecho porque somos autênticos, nada temos a esconder e sempre dissemos a verdade, o que foi reconhecido e considerado provado, pelo tribunal», informa Maria do Céu Reis.
A dirigente admite que não sabe «o que o futuro reserva», mas assegura que defenderá «sempre este património genuíno» que faz parte da «identidade territorial» e da «forma de ser e estar» das gentes de Maçainhas. E aproveita para agradecer a quem testemunhou em sua defesa: «Paula, Íris, sr. Armindo e Jorge». Não esqueceu também de agradecer ao seu advogado.
O que é o cobertor de papa?
O cobertor de papa é uma manta tradicional da Serra da Estrela, projeto têxtil impulsionado pelo Marquês de Pombal, de fabrico manual a partir de lã churra, retirada das ovelhas da raça autóctone portuguesa – a churra mondegueira. Estas mantas caracterizam-se pelo seu pêlo branco comprido com sete variedades, que variam nas cores das listas e formas como losangos, cheiro característico, pesados, quentes e impermeáveis.
Em Maio do ano passado, o executivo municipal da Guarda aprovou uma proposta de apoio financeiro de 7.500 euros anual à Associação “O Genuíno Cobertor de Papa”, tendo em vista a produção de 120 cobertores de papa, de acordo com todos os requisitos, nomeadamente no que respeita à produção/concepção artesanal e às matérias-primas utilizadas.
De acordo com o documento, consultado pelo “Todas as Beiras”, para além do apoio financeiro, a autarquia disponibiliza-se a designar os necessários funcionários municipais para executar tarefas no âmbito do protocolo, ressalvando que a colaboração será prestada de acordo com a disponibilidade dos serviços municipais em cada momento. Como contrapartida, a associação terá de fornecer anualmente trinta cobertores de papa, durante a vigência do protocolo. Deverá ainda colocar o logotipo do Município da Guarda em material promocional do Cobertor de Papa, bem como em exposições e feiras.
Em Dezembro último, a Assembleia da República aprovou, com abstenção do PAN, um projecto de resolução, apresentado pela deputada social-democrata Dulcineia Catarina Moura e pelo grupo parlamentar do PSD, a recomendar ao Governo «o reconhecimento e a salvaguarda do Cobertor de Papa como património cultural imaterial» e que «apoie os artesãos locais e incentive práticas de formação, inovação e transmissão intergeracional». Recomenda ainda que «integre o Cobertor de Papa em estratégias de turismo cultural sustentável, valorizando-o como símbolo identitário e criativo da Guarda e da região das Beiras e da Serra da Estrela», bem como «colabore com instituições, associações e agentes culturais na promoção contínua e divulgação desta expressão artística exclusiva, incluindo-a numa estratégia de marketing territorial com alcance nacional e internacional».




