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Secundária Afonso de Albuquerque, na Guarda, evoca hoje a histórica “greve estudantil de 75”

No âmbito das comemorações do 25 de Abril de 1974, está agendada para esta Sexta-feira, a partir das 10h30, no salão da Escola Secundária Afonso de Albuquerque, na Guarda, a evocação da histórica “greve estudantil de 75”, naquele estabelecimento de ensino que na altura se designava de Liceu Nacional da Guarda. A sessão destina-se particularmente a cerca de 200 alunos, estando prevista a participação e testemunho dos elementos da denominada “Comissão de Greve”.

Dia 17 de Fevereiro de 1975 é a data que marca o início de uma greve geral de alunos do então Liceu Nacional da Guarda (actual Escola Secundária Afonso de Albuquerque) e ocupação das instalações (sem ser permitida a presença de alunas durante a noite), num protesto contra o publicação do decreto sobre gestão das escolas e as médias de dispensa dos exames do 5.º ano (actual 9.º ano) e 7.º ano (actual 12.º ano). A decisão de paralisar a escola foi tomada numa Reunião Geral de Alunos (RGA) e visava obrigar o Ministério da Educação a mudar as regras das médias e do acesso ao ensino superior, bem como exigir democraticidade na gestão interna.

Tal como na Guarda, dezenas de liceus do país (de Bragança a Olhão) paralisaram, originando uma onda nacional contra o Ministério da Educação. Numa das edições do “Jornal da Greve”, do Liceu da Guarda, são enumerados diversos outros estabelecimentos de ensino na mesma situação: Gil Vicente, D. Pedro Nunes, D. Duarte, Abrantes, Covilhã, Viseu, Mirandela, Bragança, D. Maria, Chaves, Viana do Castelo, Vila Real, Lamego, Figueira da Foz, D. Pedro II, José Falcão, Carolina Michaelis, Caldas da Rainha, Tomar, Guimarães, Cascais, S. Pedro do Sul, Setúbal, D. Pedro V, Olhão, P.adre de António Vieira, Leiria e S. João da Madeira. O jornal adianta que «em alguns liceus, também os professores aderiram à greve; é o caso do Liceu Pedro Nunes em Lisboa, onde os professores entraram em greve conjunta com os alunos, apesar das ameaças que lhes foram feitas pelo MEC; também em Viseu os professores emitiram um comunicado de apoio à justa causa estudantil».

As reivindicações, em concreto, que levam à aprovação da greve em dezenas de liceus, com a ocupação das instalações, passavam pela revogação do decreto sobre gestão das escolas; alteração do despacho do Ministério da Educação sobre dispensa de exames, propondo-se a dispensa no 5.º ano com média de 10 valores e no 7.º ano com média de 12, em vez, respectivamente, dos 12 e 14 valores contidos no despacho do Governo; e criação de novas estruturas de ensino no que se refere aos processos de avaliação de conhecimentos, às matérias a leccionar e aos métodos pedagógicos.

Naquela época, havia uma autogestão nas escolas e os estudantes com 14 anos já podiam fazer parte dos conselhos de gestão dos liceus e até participar nas decisões sobre saneamentos de professores.

A greve no Liceu da Guarda durou 18 dias, tendo terminado quando os militares do Regimento de Infantaria 12 obrigaram os estudantes a abandonar o edifício. A 9 de Março, oito elementos do chamado “comité de greve”, eram presos por soldados do Regimento 12, na Praça Luís de Camões, acusados de «delito de opinião».

O último comunicado do “comité de greve”, feito na Covilhã e lido no dia 8 de Março de 1975 junto à Torre de Menagem, na Guarda, seria apreendido e oito elementos (Carlos Andrade, Carlos Baía, Vítor Baía, Joana Vedes, José Ponte e João Codina, entre outros) ficaram detidos durante dez dias. Outros, que também tinham sido detidos, viriam a ser libertados por serem menores.

Fora do então quartel militar, surgiu uma onda de solidariedade e numa das manifestações foi exigida a libertação dos estudantes. Os dirigentes do Copcon, na altura liderado por Augusto Valente, entendeu devolver a liberdade aos elementos do “comité de greve”.

Alguns dos acontecimentos ocorridos durante o período de greve foram sendo relatados no “Jornal de Greve”, que contém textos, poemas e cartoons feitos pelos alunos, alguns com idades entre os 11 e os 14 anos, como é, aliás, referido num dos textos incluídos na edição N.º 3 desse jornal (datada de 25 de Fevereiro de 1975).

Nessa edição são evidenciados os motivos que levaram à paralisação: «A nossa greve não é a “greve dos 14” por excelência, como muitos insinuam; ela não foi, ainda, o refúgio dos indolentes, se bem que não passa pela cabeça de ninguém que uma greve seja realizada por indivíduos indolentes. A nossa greve é fundamentalmente a manifestação do nosso interesse em renovar as estruturas do ensino porque, afinal, renovando o ensino estamos indubitavelmente a dar o nosso contributo para a tão desejada renovação do país». «Todos nós sabemos que até hoje se tem lutado por um aperfeiçoamento do ensino, renovando o método pedagógico com que o mesmo estava a ser transmitido aos alunos. Pois foi nosso objetivo, ao decretar greve, fazer sentir aos responsáveis a necessidade urgente de tornar mais acessível a assimilação de conhecimentos que os alunos pretendem», refere ainda o texto, que é um dos que abre a edição de 25 de Fevereiro de 1975.


Livro “Os Putos do PREC — Os Estudantes no Verão Quente de 1975”, de Pedro Prostes da Fonseca, foca a acção dos alunos de liceu

“Os Putos do PREC — Os Estudantes no Verão Quente de 1975”, de Pedro Prostes da Fonseca, publicado pela Guerra e Paz, foca especificamente a acção dos alunos de liceu um ano após a Revolução dos Cravos, a partir da experiência do próprio autor e de entrevistas que fez a quem participou activamente naquele período tumultuoso da História de Portugal.
«Aos 14 e 15 anos, viviam para a política. Participavam em medidas de gestão nos liceus ou tornavam-nas impossíveis. Histórias de jovens irrequietos que parecem inventadas à distância de 50 anos», escreve o autor na abertura do livro.

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