“Literatura de cordel e cantos de cegos” é o tema da palestra de César Prata, que será ilustrada com cantos de cegos, agendada para amanhã (Quarta-feira), a partir das 21 horas na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda. A literatura de cordel resulta da forma como os textos (folhas soltas) eram expostos em feiras e mercados e muitas das histórias que continham eram de “faca e alguidar”.
Compositor da Guarda e fundador de importantes colectivos de revisitação da música tradicional como Chuchurumel e Assobio, César Prata aproveitou um repertório esquecido, cantado pelos cegos papelistas do século XIX e vendido em versões impressas em modo de folhetos de cordel, para fazer em 2003 um álbum em que as variações temáticas saltitam entre os crimes, as traições e as mortes violentas, a que se seguiu, mais tarde, um outro disco sobre canções de cordel. Alguns desses temas poderão ser ouvidos amanhã à noite durante a palestra.
«Vem muito longe a memória dos cegos papelistas que, por mercados, feiras e romarias, apregoavam casos estranhos, sucessos inauditos, virtudes hagiográficas e relatos noticiosos, as vezes prognósticos e adivinhações», refere José Alberto Ferreira num texto escrito a propósito do espectáculo “Canções do Ceguinho”, estreado em Junho de 2002 no Auditório do Paço da Cultura da Guarda, acrescentando que, «tirando partido do lugar de sapiência e justeza que ao cego se atribui, anunciavam matéria oscilante entre a mistificação e a informação, entre a crendice e o pitoresco informativo, entre os casos conhecidos e as tragédias de folhetim, por vezes ao som rouco do harmónio ou da rabeca».
Refere ainda José Alberto Ferreira, docente convidado da Universidade de Évora, que «os cegos papelistas do século XVIII vendiam as histórias impressas em folhetos de papel barato, com letra miúda de má qualidade, por vezes com umas quantas imagens a alimentar o fascínio das palavras que contavam histórias em versos de pé quebrado, pouco férteis nos mecanismos estruturais e votadas a fazer permanecer receitas testadas e de sucesso garantido». E «os cegos cantores do século XX seguiam a mesma receita, com as letras das músicas e as fotografias das estrelas do momento à mistura».
«As letras das músicas ficaram perdidas na voragem do mundo do espectáculo, todos os anos novas e esquecidas logo depois. Uns e outros sem alcançarem a dignidade literária e sem se acolherem ao estatuto do autor para sobreviver na memória do sistema cultural», informa José Alberto Ferreira, que foi durante alguns anos director artístico do Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida, adiantando que «quanto ao cego, papelista e cantor, não será demais dizer que o século XX assistiu (quase) indiferente às profundas mutações que a sua figura sofreu e que levaram ao seu inelutável desaparecimento».




