A Europa vive um processo de transformação silenciosa, mas estrutural. Tal como acontece no tecido empresarial português e europeu ou até mundial — onde sinais discretos revelam mudanças profundas — também o continente europeu enfrenta um conjunto de dinâmicas demográficas e tecnológicas que irão determinar a sua prosperidade nas próximas décadas. O envelhecimento acelerado da população, a necessidade crescente de imigração, a revolução da inteligência artificial e a estagnação do crescimento populacional não são fenómenos isolados. Antes, são forças interligadas que moldam a economia europeia e nacional, o mercado de trabalho, a sustentabilidade dos sistemas sociais e a própria coesão territorial da U.E. e de Portugal.
O envelhecimento: o grande desafio estrutural europeu
A Europa é hoje o continente mais envelhecido do mundo. Em vários países, mais de um quinto da população tem mais de 65 anos. A combinação de baixa natalidade, adiamento da maternidade e aumento da esperança média de vida criou um cenário ou situação de substituição geracional insuficiente. As consequências para a União e o nosso país são claras: pressão crescente sobre sistemas de pensões e saúde com cada vez menos contribuintes e mais beneficiários, redução da população ativa – a que trabalha – e risco de estagnação económica. O envelhecimento é particularmente acentuado fora das grandes cidades onde os empregos escasseiam, aprofundando a desertificação humana do interior e agravando desigualdades territoriais — um padrão que Portugal e a U.E. conhecem bem.
Imigração: necessidade económica, debate político
Sem imigração, a população europeia há muito que já estaria em declínio acentuado. A imigração tornou-se a principal fonte de rejuvenescimento da força de trabalho e da população e um fator essencial para o funcionamento dos setores com escassez de mão de obra, como saúde, construção, agricultura, cuidados pessoais, hotelaria, restauração e tecnologias. Contudo, a imigração é também um tema politicamente sensível, frequentemente capturado por discursos polarizadores, isto é, pelos partidos extremistas do espectro político de que não refiro o nome para não lhes dar publicidade. A Europa precisa, como de pão para a boca, de imigração, mas precisa sobretudo de políticas inteligentes de imigração, capazes de atrair talento, garantir integração e distribuir população para além das grandes metrópoles, ou seja, sem excluir o necessitado e quase abandonado à sua sorte interior profundo.
Inteligência artificial: a nova fronteira da produtividade
A inteligência artificial surge como uma força aparentemente capaz de compensar, em larga escala, a redução da população ativa. A automação, a robótica e os sistemas inteligentes podem aumentar a produtividade, libertar trabalhadores de tarefas repetitivas e até criar novos setores económicos e novos empregos. A IA pode ainda apoiar o envelhecimento ativo, através de cuidados digitais e monitorização remota. Mas a I.A. também traz riscos como a substituição de empregos de média qualificação, e concentração tecnológica em poucos países e aumento das desigualdades regionais, entre outros. A Europa, a U.E e Portugal terão de decidir se querem ser utilizadores ou produtores de tecnologia — e essa escolha determinará a sua competitividade global.
Crescimento populacional: entre a estagnação e o declínio
A população europeia está praticamente estagnada ou até em declínio nalguns locais, regiões e países. Mas mercados internos mais pequenos limitam o crescimento económico, reduzem a capacidade de inovação, relacionada geralmente com a população mais jovem, e colocam pressão sobre a sustentabilidade fiscal e da previdência social, dois pilares fundamentais da economia social em vigor em grande parte da Europa. Num mundo em que continentes como a África e Ásia crescem rapidamente, a Europa e os seus países arriscam perder influência geopolítica se não enfrentarem os seus défices demográficos. O continente precisa de mais população — mas precisa, sobretudo, de uma população ativa relativamente jovem, qualificada e distribuída de forma equilibrada ou equitativa pelas suas componentes.
Quatro forças, um mesmo destino
Estas dinâmicas não atuam isoladamente, muito pelo contrário, elas agem interligadas. O envelhecimento aumenta a necessidade de imigração; a imigração compensa a estagnação populacional; a IA compensa a falta de mão de obra; e o crescimento populacional condiciona a sustentabilidade económica. Os países da Europa e a U. E. no seu todo, encontram-se, assim, perante uma encruzilhada histórica. Podem optar por uma estratégia de adaptação ativa — com políticas de imigração qualificadas, bem pensadas, incentivos à natalidade, investimento massivo em IA e estratégias territoriais diferenciadas — ou resignar-se a um futuro de crescimento anémico e perda de relevância, crescimento que já está a ocorrer no principal motor da Europa há vários anos, a Alemanha, mas não só.
Em síntese, e para terminar, o que está em causa não é apenas o futuro económico do continente e dos nossos países da parte ocidental do continente euroasiático, mas a sua capacidade de manter sociedades coesas, inovadoras e socialmente sustentáveis. As tendências estão identificadas. A questão é se a Europa terá coragem política e visão estratégica para as enfrentar.
José R. Pires Manso, professor catedrático na UBI e responsável do Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social (ODES)




