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Trovas de Bandarra em forma de música pode contribuir para transmitir às novas gerações a obra do poeta-sapateiro

Dar a conhecer as Trovas de Bandarra em forma de música, tornando mais acessível e agradável a sua abordagem ao grande público, tem sido o propósito dos concertos de Julieta Silva, um dos quais realizou-se na Guarda. Usa diversos instrumentos musicais tradicionais como a viola bandurra (ou beiroa), o adufe, a sanfona, a concertina e ainda a flauta de pastor, combinados com um toque de electrónica. Com um percurso artístico ligado à música tradicional portuguesa, Julieta Silva, que integrou diversos projectos como “Chuchurumel” ou “Diabo a Sete”, espera que o “Trovas de Bandarra” musicado possa um dia surgir em disco.

Associar música às trovas de Bandarra. Foi este o desafio lançado a Julieta Silva pela Freguesia de Aldeia Velha, do concelho de Trancoso, para inaugurar o trilho pedestre até ao lugar de Nogueirão, que é popularmente apontado como tendo sido o lugar onde se refugiou o poeta-sapateiro, depois do processo da inquisição. «Esta ideia já estava cá dentro e já tinha manifestado a vontade de fazer este trabalho», contou Julieta Silva ao jornal “Todas as Beiras”, e, ao ser desafiada a criar aquele momento cultural, não hesitou e daí nasceu um projecto que visa dar a conhecer as “Trovas de Gonçalo Anes Bandarra” em forma de música, tornando mais acessível e agradável a sua abordagem ao grande público. Já fez vários concertos, um dos quais nas comemorações dos 750 anos da Feira de São Bartolomeu, em Trancoso, também numa acção sobre um património abandonado em Trancoso [Solar dos Brasis, Torre de Terrenho, em Agosto de 2023], em Sernancelhe, por altura das comemorações dos 900 anos do foral, e, em finais de Junho deste ano, na Capela de São Pedro, na Guarda, promovido pelo Museu local. Julieta Silva espera agora que o Município de Trancoso possa subsidiar a produção de um disco.

«É uma ousadia pegar em trovas de tão ilustre e afastado de mim no tempo. Quando estudei melhor as trovas senti muita empatia, muita identificação, exactamente porque as trovas do Bandarra têm uma actualidade incrível. Conseguimos mil interpretações que se adaptam aos nossos tempos», contou. Julieta Silva acrescentou que «a parte musical foi muito fácil, muito rápido» e que «não quis sobrepor a obra ao texto». «Não procurei nada de muito complexo, tentei algo tipo minimalista para deixar as trovas serem o objecto principal», salientou, explicando que optou por usar «os instrumentos com que Bandarra se terá cruzado na sua vida: a sanfona, que é anterior a ele, é medieval; a viola beirôa com cordofone popular, que se adequa ao tempo; o adufe e a flauta de pastor, que são instrumentos remotos da nossa tradição».

Julieta Silva espera que «ao trazer as trovas de uma forma musicada« isso possa ser «uma ponte para as dar a conhecer às novas gerações». «Apesar de haver um conhecimento muito geral, fiquei muito surpreendida, este ano, em Vila Viçosa, no Alentejo, ao perceber que as pessoas tinham muito carinho pelo Bandarra e conheciam as suas trovas», contou, relembrando que a obra do poeta-sapateiro tem «uma dimensão enorme, é fonte para autores portugueses de grande renome como o padre António Vieira e Fernando Pessoa». «Aliás, eu abro o espectáculo com um texto dedicado ao Bandarra, de Fernando Pessoa, na sua obra “Mensagem”.

Com um percurso artístico ligado à música tradicional portuguesa, Julieta Silva integrou diversos projectos, como “Chuchurumel”, “Diabo a Sete”, “Chukas [primitivos e civilizados]”, “Alacrã”, um duo de sanfonas com Carlos Guerreiro, e “Las Çarandas”, que se debruça sobre o repertório musical da região de Miranda do Douro.

Poeta-sapateiro e as trovas consideradas proféticas

Gonçalo Anes, o Bandarra de alcunha, foi uma figura emblemática e incontornável de Trancoso que aí viveu na primeira metade do Século XVI, onde escreveu um conjunto de trovas que ficaram para a posteridade como proféticas. Se em vida do autor as suas trovas atingiram uma notoriedade que o levariam aos calaboiços da Inquisição, depois da sua morte, a reputação do dom profético de Bandarra amplificou-se ainda mais. Ao longo dos séculos, grandes criadores da Língua Portuguesa, como Padre António Vieira e Fernando Pessoa, citaram e escreveram a partir das Trovas de Bandarra.

«As suas profecias rimadas, muito mais bíblicas e também mais patrióticas do que os seus modelos espanhóis, foram-se rapidamente divulgando pelo país, e não tardaram a encontrar leitores na capital do Reino. Os cristãos-novos, que já antes o tinham consultado como uma espécie de rabi, passaram agora a venerá-lo como um profeta solidário com eles nas suas esperanças messiânicas», refere um documento sobre Bandarra da autoria de José van den Besselaar (professor jubilado da Universidade Católica de Nijwegen, Holanda), publicado na página do Instituto Camões.

O autor refere também que «a partir de 1541 não se ouve mais nada do sapateiro de Trancoso», acrescentando que, «segundo uma opinião muito divulgada, ele teria falecido por volta de 1550». «Mas, como já observou Diogo Barbosa Machado na sua Biblioteca Lusitana, a data da sua morte deve ser posterior a 1556, porque a 23 de Março deste ano foi confirmado na dignidade episcopal D. João de Portugal, bispo nomeado da Guarda. Foi a ele que Bandarra enviou um exemplar das suas Trovas, precedidas de uma dedicatória elogiosa», afirma José van den Besselaar.

O professor jubilado escreve ainda «Bandarra morreu, mas não lhe morreram as trovas». «Aliás, já na vida do autor sabemos que “se enchera a terra das ditas trovas” (como lemos no processo inquisitório), e a difusão das profecias continuava depois da morte do profeta, apesar da ordem do Santo Ofício de as apresentar ao tribunal. Os meninos da Beira aprendiam a ler pelos toscos versos do sapateiro de Trancoso».

Desde 2017 que existe em Trancoso a “Casa do Bandarra”, um espaço dedicado ao sapateiro, poeta e profeta Bandarra, para dinamizar turisticamente aquela cidade .O edifício localiza-se no centro histórico, em frente ao Centro de Interpretação da Cultura Judaica dedicado a Isaac Cardoso, médico judeu que nasceu no início do século XVII naquela localidade.

A “Casa do Bandarra” tem equipamento associado às novas tecnologias, podendo, assim, agradar também aos mais jovens. No seu interior, existe uma fonoteca com as suas trovas do poeta, um livro digital com as lendas que lhe estão associadas, um painel sobre a sua prisão pela Inquisição, em 1541, e uma mesa multimédia didática sobre a profissão de sapateiro, entre outros conteúdos.

A “Casa do Bandarra” faz parte do Projecto Rotas de Sefarad – Valorização da Identidade Judaica Portuguesa no Diálogo Interculturas que resultou numa candidatura ao Programa EEA Grants 2009-2014 da Associação Rede de Judiarias de Portugal, da qual o Município de Trancoso foi co-fundador. O projecto representou um investimento global de 138 mil euros e teve uma comparticipação de 85%, segundo a autarquia.

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