Quinta-feira, 19 Fevereiro, 2026
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O futuro dos territórios do interior

Escrevo esta crónica na primeira pessoa porque aquilo que me levou a escrevê-la não foi uma estatística, um relatório ou um debate académico. Foi um momento simples, humano e profundamente revelador.

No Natal tive a oportunidade de assistir a um concerto dos Alma Mater. Um concerto belíssimo, cheio de identidade, emoção e memória. Daqueles que nos fazem sentir orgulho na nossa terra e nas pessoas que dela fazem parte. Sou presença assídua em eventos culturais — faço questão disso — porque acredito que a cultura não é um luxo: é um sinal de vida.

Acompanho o percurso do Eduardo e do Rui Pedro desde os tempos dos Trivenção, dos Filhos da Pauta e do mais conhecido Prós e Contras. São projetos que marcaram gerações e ajudaram a construir uma identidade cultural própria, mesmo longe dos grandes centros.

No final do concerto, aproximei-me do Rui Pedro e perguntei-lhe, quase por reflexo: “Onde andas agora?”. A resposta foi curta e desarmante: tinha mudado de armas e bagagens para a Maia, com a família.

A conversa durou pouco, mas ficou comigo. Ficou porque me obrigou a parar e a pensar. A pensar a sério.

Se alguém como o Rui Pedro — envolvido em múltiplos projetos, presente em várias organizações da cidade, ligado ao Outeiro, ao Centro Cultural da Guarda e a tantas outras dinâmicas — acaba por sair, então a pergunta impõe-se: o que estamos nós a fazer enquanto território? Que sinais damos a quem cria, a quem se envolve, a quem insiste em ficar?

Falamos muito do interior: da desertificação, do envelhecimento, da falta de oportunidades. Tudo isso é verdade. Mas há uma ferida menos falada e talvez mais grave: a incapacidade de cuidar das pessoas que fazem a diferença.

Não falo apenas de artistas ou músicos. Falo de agentes culturais, dirigentes associativos, técnicos, voluntários, criadores. Pessoas que dão tempo, energia e talento a projetos que mantêm o território vivo. Pessoas que, muitas vezes, fazem muito com quase nada.

Quando estas pessoas partem, não se perde apenas um nome ou um projeto. Perde-se experiência, conhecimento, memória coletiva. Perdem-se redes, ideias e futuros possíveis. É um capital humano que não se substitui e que, na maioria dos casos, não regressa.

O mais duro é saber que estas saídas raramente acontecem por falta de amor à terra. Acontecem por desgaste, por cansaço, por ausência de reconhecimento e por falta de condições mínimas para viver com dignidade e estabilidade.

O exemplo do Rui Pedro é apenas um entre muitos. Podia falar de outros projetos que desapareceram, de outras pessoas que foram ficando pelo caminho, de talentos que hoje brilham longe daqui porque aqui não encontraram espaço para crescer.

Depois admiramo-nos que os jovens não fiquem, que as salas estejam vazias, que os projetos não tenham continuidade.

O futuro dos territórios do interior não se constrói apenas com obras, fundos ou discursos bem ensaiados. Constrói-se com pessoas. E essas pessoas precisam de sentir que contam.

É preciso dizer isto de forma clara: a cultura e o associativismo não podem continuar a ser tratados como acessórios. São pilares do desenvolvimento, da coesão e da identidade. Sem eles, o território empobrece — mesmo que tenha estradas novas ou edifícios renovados.

Escrevo esta crónica como um apelo direto.

Às autarquias, às instituições, às associações, mas também a todos nós enquanto comunidade: valorizem quem cá está. Reconheçam quem faz. Criem condições para que as pessoas não tenham de escolher entre ficar e viver.

Ainda vamos a tempo. Mas cada pessoa que sai é um aviso. E ignorar esses avisos é escolher, por omissão, um território mais pobre, mais vazio e com menos futuro.

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