Quatro anos depois do chumbo da candidatura da Guarda a “Capital Europeia da Cultura”, a vereadora da coligação PSD/CDS/IL, Alexandra Isidro, defendeu que o Município da Guarda deveria aproveitar o trabalho que tinha sido desenvolvido, «que deixou um importante património estratégico e programático, bem como projetos que permanecem activos, como a Orquestra Académica Filarmónica Portuguesa», e avançar com uma candidatura da cidade a “Capital Portuguesa da Cultura 2028”. Questionado sobre esta proposta, o presidente da Câmara, Sérgio Costa, disse aos jornalistas que «os serviços estão a analisar» essa questão e «a seu tempo» falará «sobre isso».
O prazo para apresentação de propostas decorre até ao próximo dia 30 de Setembro. O regulamento do concurso está estabelecido pela Portaria nº 189/2026/1 de 22 de Abril. A cidade seleccionada receberá uma dotação financeira de um milhão de euros para promover a cultura como factor de desenvolvimento sustentável, coesão territorial e valorização económica.
No entender da vereadora, a Guarda reúne condições sólidas para apresentar uma candidatura credível, estruturada e alinhada com os objectivos desta iniciativa, incorporando a experiência acumulada ao longo de 25 anos de investimento cultural e dispondo de património material e imaterial identitário, infraestruturas culturais consolidadas, forte dimensão participativa e uma relevante escala regional e transfronteiriça.
«A visão de longo prazo construída no âmbito da candidatura a Capital Europeia da Cultura desencadeou dinâmicas estruturantes, projectos colaborativos e novas práticas culturais que permanecem activas, de que é exemplo, entre outros, a Orquestra Académica Filarmónica Portuguesa», refere na proposta apresentada na reunião do executivo municipal, sustentando que «a possibilidade de uma candidatura da Guarda a Capital Portuguesa da Cultura 2028 permite precisamente consolidar esse caminho já iniciado, transformando um processo participado e estruturado numa oportunidade concreta de implementação de políticas culturais de médio e longo prazo, em linha com os princípios definidos na Portaria n.º 189/2026/1».
Depois de evidenciar que «o Regulamento estabelece que as candidaturas devem demonstrar contributo para uma estratégia cultural sustentada, capacidade de execução, inovação programática, impacto social e económico e potencial de legado duradouro», Alexandra Isidro considera que «a Guarda reúne condições particularmente sólidas nestes domínios». Destaca ainda que «o município dispõe de infraestruturas culturais relevantes e consolidadas, destacando-se o Teatro Municipal da Guarda, a Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, o Museu da Guarda e o Centro de Estudos Ibéricos, equipamentos que constituem âncoras fundamentais de programação, criação artística e pensamento crítico, e cujas missões poderão ser reforçadas no âmbito deste processo».
Na proposta é ainda referido que, «paralelamente, a candidatura deverá valorizar o património material e imaterial do território enquanto elemento diferenciador da sua identidade cultural» e que «a reabilitação e valorização do centro histórico, a salvaguarda do património imaterial e a revitalização de artes tradicionais poderão afirmar uma visão contemporânea do património: não apenas como memória, mas como recurso vivo de criação, educação, turismo cultural e desenvolvimento económico».
Questionado sobre esta proposta, o presidente da Câmara disse aos jornalistas que «os serviços estão a analisar» essa questão e «a seu tempo» falará «sobre isso». «A portaria que regulamenta essa candidatura foi publicada no dia 22 de Abril. Como podem imaginar, os serviços técnicos do município estão a analisar tudo isso, com cabeça, tronco e membros para não acontecer a pouca-vergonha que aconteceu com a candidatura a Capital Europeia da Cultura na Guarda, onde se gastou quase um milhão de euros e, no final, tal como a senhora vereadora do PSD esteve comigo à época no Centro Cultural de Belém, com um júri internacional, fomos claramente envergonhados com aquilo que foram as declarações do júri perante a candidatura que a Guarda apresentou», evidenciou Sérgio Costa.
Autarca chegou a estar confiante na candidatura e quando foi chumbada demarcou-se e considerou que era «manca»

De recordar que alguns dias antes do júri europeu ter deitado por terra as pretensões do município da Guarda, Sérgio Costa referiu, a 4 de Março de 2022, estar confiante na passagem. «Estamos serenos, mas confiantes, porque queremos ganhar, de facto, este desafio, esta candidatura. Passar, acto contínuo, à “shortlist” e depois ambicionar, verdadeiramente, podermos ser a Capital Europeia da Cultura em 2027», disse à margem da apresentação pública do dossiê da candidatura “Guarda 2027 – Capital Europeia da Cultura”, que decorreu no Grande Auditório do Teatro Municipal da Guarda (TMG) e que serviu como «ensaio geral» da apresentação ao júri europeu, cuja audição estava agendada para 9 de Março desse ano, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Das 12 candidatas, o júri escolheu Aveiro, Braga, Évora e Ponta Delgada para passarem à fase seguinte.
Ao ser afastada a Guarda da corrida a Capital Europeia da Cultura 2027, o autarca viria a demarcar-se do processo lembrando que o executivo que liderava não teve «qualquer responsabilidade na gestão», nem participou «na escolha dos seus responsáveis ou sequer na sua programação». «Durante os cinco meses ou os quase cinco meses em que assumimos a gestão do executivo municipal da Guarda, limitámo-nos a ser apenas meros observadores de todo o processo da candidatura. Não tivemos qualquer responsabilidade na sua gestão ou decisão. Nada alterámos ou sequer influenciámos. Mesmo assim, fomos defender institucionalmente o município da Guarda perante o júri internacional que decidiu o afastamento da candidatura», justificou.
Considerou que a candidatura da Guarda era «manca», porque lhe faltava «os criadores e o público». «As entidades e associações foram completamente arredadas deste processo e os próprios guardenses não foram mobilizados para este tão alto desígnio de afirmação da cultura de todo um território», apontou o presidente da Câmara. O autarca lamentou «que depois de mais de um milhão de euros gastos, pouco ou nada tenha ficado na memória dos guardenses». Apesar da decisão do júri, anunciou que o município iria redefinir a sua política de cultura.
Em entrevista ao já extinto jornal “Terras da Beira”, Sérgio Costa afirmou, em Outubro de 2022, que lamentava que «se tenha gasto tanto dinheiro numa mão cheia de nada em termos de candidatura», embora não tenha apresentado valores. Adiantou que o executivo municipal iria rever alguns dos projectos que constavam da candidatura. «Vamos paulatinamente revisitar alguns daqueles projectos e faremos aqueles que considerarmos que podem ser facilmente exequíveis sob o ponto de vista técnico e financeiro», referiu.
De relembrar que, aquando da apresentação pública da candidatura em Março de 2022 no TMG, Sérgio Costa disse aos jornalistas que o investimento feito com a candidatura «é muito avultado», não teve «qualquer comparticipação» e a verba foi «proveniente da tesouraria directa dos cofres do município». Nesse dia, o então director-executivo da candidatura, Pedro Gadanho, ex-diretor do MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (Lisboa), disse acreditar que a mesma seria vencedora e, se isso se confirmasse, era «algo» que podia «ser transformador» para o território, recordando que a candidatura envolvia, além da Guarda, 18 municípios, dois dos quais espanhóis (Cuidad Rodrigo e Béjar). Em termos de financiamento, o orçamento global da candidatura estimado ultrapassava os 53,8 milhões de euros, que Pedro Gadanho entendia não ser «uma despesa» mas sim «a oportunidade de trazer para esta região 53 milhões de euros».
Relatório apontou diversas falhas à candidatura da Guarda

O júri que avaliou a candidatura da Guarda a Capital Europeia da Cultura 2027 apontou diversas falhas ao documento, entre as quais, falta de dimensão europeia, falta de implementação, falta de clareza, falta de experiência em acolher eventos internacionais de grande porte e programas sub-desenvolvidos. O relatório, disponível em versão inglesa, é especialmente crítico quanto à Dimensão Europea e ao Programa Artístico e Cultural, dois dos seis critérios em avaliação.
Os doze especialistas internacionais, dez nomeados por instituições da União Europeia e dois pelo Ministério da Cultura português, consideram que «as experiências adquiridas através deste envolvimento e empenho regional nesta fase de pré-selecção podem revelar-se muito benéficas se se optar por perseguir oportunidades europeias alternativas que melhor se adequem ao objectivo destas relações regionais e às suas legítimas aspirações de revitalização territorial».
Na conclusão do relatório são apresentadas falhas em praticamente todos os seis critérios para avaliação: Contribuição para a Estratégia Cultural a Longo Prazo, Programa Artístico e Cultural, Dimensão Europeia, Alcance e Desenvolvimento de Públicos, Gestão e Capacidade de Execução. De salientar que, concretamente em relação ao programa itinerante entre os 19 municípios envolvidos, o júri considera que «apresenta alguns riscos, pois depende de um bom modelo de transporte (público) para ser amplamente um sistema de comunicação acessível e eficiente, que ainda precisa ser desenvolvido». Sobre a capacidade de execução, entende que «a cidade tem pouca experiência em acolher eventos internacionais de grande porte» e que a capacidade de alojamento, na cidade e na região, «não são suficientemente descritas».




