Quando a política se torna espetáculo de pose, os programas eleitorais viram catálogos vazios — e o futuro fica entregue ao grito.
Nos anos 50, em Inglaterra, os Teddy Boys foram uma das primeiras tribos urbanas modernas. Deixaram marca não pelas ideias, mas pela imagem: casacos compridos, sapatos reluzentes, litros de brilhantina a segurar o penteado. A sua força estava na pose, não na substância. Foram acusados de rebeldia e barulho, mas, no essencial, não deixaram nada de estrutural.
Setenta anos depois, os herdeiros estão na política. Não usam casacos eduardianos, mas fatos engomados; não brilham o cabelo, mas ensaiam minuciosamente o discurso em frente às câmaras. Crescem e mantêm-se dentro das máquinas partidárias, alimentados pela fidelidade ao chefe, pelo alter-ego e pelo treino do soundbite. E, tal como os Teddy Boys originais, vivem sobretudo para a imagem e para a sua manutenção e projeção pessoal.
Quando a política se enche de Teddies preocupados apenas com a pose e com o seu umbigo, a sociedade olha para eles com desdém. O cidadão comum percebe que estas figuras são peças de vitrine: úteis para a fotografia, eficazes no auto-marketing, mas incapazes de responder aos problemas reais — saúde, habitação, desigualdades, despovoamento.
De norte a sul do país, os processos eleitorais são o espelho perfeito deste vazio. Em vez de projetos políticos com visão e programas capazes de definir o futuro coletivo, assistimos a campanhas transformadas em cadernetas de fotografias, onde os Teddies disputam lugares cimeiros como cromos raros. Vale mais a cara na lista do que a ideia no papel.
E se há campo onde este vazio é mais evidente, é nos programas eleitorais. Esses documentos, que deviam ser bússolas de orientação para o desenvolvimento estratégico de cada autarquia ou de todo o país, transformaram-se em brochuras descartáveis. Em vez de traçarem uma visão clara para dez ou vinte anos, reduzem-se a listas de promessas avulsas, escritas para agradar a todos durante quinze dias de campanha e esquecidas logo depois.
Um programa eleitoral sério devia responder a perguntas fundamentais:
• Como garantir a sustentabilidade económica e social de uma região?
• Que prioridades se definem para habitação, saúde, educação e transportes?
• Que visão de futuro se propõe para reter jovens, atrair investimento ou combater o despovoamento?
Mas em vez disso, temos slogans rápidos, frases feitaspara cartazes ou posts de rede social. O programa, que devia ser a arquitetura do futuro coletivo, é tratado como guião de marketing.
O resultado é claro: autarquias sem rumo, políticas públicas ao sabor do improviso, regiões condenadas a repetir os mesmos erros de década em década. Quando se falha na estratégia, o desenvolvimento fica sempre adiado.
E é neste vazio que florescem os extremos:
• Quando os partidos tradicionais oferecem apenas espetáculo, cresce o espaço para quem promete rutura.
• Quando a política institucional se reduz a uma passerelle de vaidades, a raiva dos descontentesprocura alternativas radicais.
• Quando os programas eleitorais são apenas catálogos de promessas vazias, o futuro fica entregue ao improviso de quem grita mais alto.
Não são apenas os extremos que prosperam neste vazio; também se multiplicam movimentos de cidadãos desiludidos, pessoas que se afastam da política, deixam de votar ou procuram alternativas fora do sistema tradicional.
O desgaste é visível: ver Teddies mais preocupados com a pose do que com a substância, correndo o risco de nos governar — ou observando os resultados de alguns que já governam — provoca cansaço e desconfiança generalizada. Estes Teddies andam sempre na sua tribo, protegendo-se mutuamente, potenciando-se uns aos outros e afastando qualquer ameaça interna. Rejeitam o talento verdadeiro, os fazedores, os que se movem em espírito de missão — tal como uma moeda má que expulsa a boa de circulação. A relação com quem os elege é momentânea e de plástico: fotos, apertos de mão calculados, sorrisos ensaiados. A política transforma-se num espetáculo de poses e soundbites, enquanto o país permanece à deriva. E cedo ou tarde surgem os que, fartos do teatro, preferem o grito.
Tal como os Teddy Boys dos anos 50 abriram caminho a tribos mais duras e agressivas, também estes novos Teddies partidários abrem espaço para fenómenos políticos radicais. Não pela força do que trazem, mas pelo vazio que deixam.
No fundo, os novos Teddies não constroem. Apenas ocupam o palco — e ao ocuparem-no de forma vazia, preparam o terreno para que outros, mais ruidosos e perigosos, ganhem público.




