Futuramente, o actual presidente do Município da Guarda, Sérgio Costa, deverá ser tratado por «presidente da Câmara ou por majestade»? Foi esta a dúvida colocada pelo deputado social-democrata Ricardo Neves de Sousa durante o discurso crítico, com alguma ironia à mistura, que fez ontem na reunião da Assembleia Municipal, tendo em conta o facto de Sérgio Costa se recandidatar desta vez pela coligação denominada “Pela Guarda”, que envolve os partidos “Nós Cidadãos” e PPM. Numa reacção ao discurso do social-democrata, tanto o deputado José Valbom (PG) como do próprio presidente da autarquia evidenciaram que o PSD está de mãos dadas em diversas autarquias do país, entre as quais, Aveiro, Coimbra e Évora.
Na última reunião da Assembleia Municipal da Guarda antes das eleições autárquicas, agendadas para 12 de Outubro, era de esperar que o assunto das autárquicas fosse abordado pelos vários deputados. E a intervenção que suscitou uma forte reacção por parte da bancada que apoia o actual executivo municipal foi originada pelo social-democrata Ricardo Neves de Sousa, que logo no início do discurso questionou se deveria tratar o presidente da autarquia, Sérgio Costa, por «sr. Presidente da Câmara ou por Vossa Majestade», justificando que o PPM (Partido Popular Monárquico), partido que agora sustenta, juntamente com o “Nós, Cidadãos”, a recandidatura do actual autarca, tem como finalidade a instauração de uma monarquia representativa.
Acusou depois o movimento “Pela Guarda” (PG), que sustentou a candidatura há quatro anos, de ter «uma contradição gritante, quase um insulto à confiança daqueles guardenses que votaram nele precisamente porque rejeitavam as lógicas partidárias». «A incoerência torna-se ainda mais grave quando percebemos que uma das siglas que agora acolhe Sérgio Costa, o PPM, se opõe frontalmente aos valores republicanos que o próprio defendia e que fazem parte da identidade da Guarda e da democracia portuguesa», salientou o social-democrata.
Ricardo Neves de Sousa chegou mesmo a afirmar que se a candidatura da coligação denominada “Pela Guarda” (NC/PPM) vencer as eleições, a Guarda «passará a ser a única capital de distrito do país governada sob a bandeira monárquica». O que, sustenta, «poderia ser visto como uma oportunidade de afirmação nacional, na prática representará um prejuízo político e institucional profundo porque promove o isolamento da Guarda no contexto político nacional, por se tornar um caso atípico e marginal, a perda de influência junto do Governo e das grandes instâncias de decisão» e uma «descredibilização externa, já que uma cidade com a bandeira do PPM será olhada como uma excentricidade política em vez de como um parceiro sério no quadro nacional».
A resposta à intervenção de Ricardo Neves de Sousa não tardou. O deputado do PG, José Valbom, recordou que «um dos melhores governos dos primeiros tempos da democracia» foi o da aliança entre «três príncipes da democracia: Gonçalo Ribeiro Teles (PPM), Freitas do Amaral (CDS) e Sá Carneiro (PPD)»
«O PPM está efectivamente connosco. Não nos envergonha. Orgulha-nos porque nos dá respaldo para discutirmos, irmos a eleições porque há muita gente nesta terra que não queria que fossemos a eleições», afirmou, adiantando que houve tentativas de impugnação das listas. «Para não sermos impugnados fomos juntar-nos a dois partidos, que tínhamos a certeza que assim conseguíamos chegar a eleições», salientou.
E José Valbom não se ficou por aqui na reacção ao discurso “irónico” de Ricardo Neves de Sousa: «Chegámos a 2025 e o PPM está connosco e está com muita mais gente. Por exemplo, nas eleições do dia 12 de Outubro está com o PSD em Aveiro e penso que em mais seis ou sete municípios». «Vejam só que a nossa companhia é tão má, tão má que vocês [PSD] a têm em sete ou oito municípios», frisou. Ao deixar o palanque da Assembleia, José Valbom virou-se para o deputado social-democrata para o aconselhar a estudar a história do PPM.
De seguida, João Correia (PSD), numa tentativa de “limpar” a imagem negativa deixada por Ricardo Neves de Sousa sobre o PPM, viria a defender que o PPM é um partido da democracia e que aquilo que o deputado social-democrata tinha dito era uma «questão de monarquias, nada mais». «Portanto, podemos divertir-nos de vez em quando na Assembleia e a Assembleia tornar-se mais divertida», salientou.
O autarca Sérgio Costa também reagiu, rotulando a intervenção de Ricardo Neves de Sousa como «um discurso político da lama». Confirmou que houve tentativas de impugnação das listas da coligação. «Era aquilo que na penumbra, nos bastidores da política rasca e baixa, estava a ser preparado, que era a impugnação das listas do PG», referiu, justificando que, por isso, foi formada a coligação “PG – Pela Guarda”.
Sobre as coligações com o PPM, Sérgio Costa enumerou que, para além de Aveiro, há os casos de Coimbra, Alenquer ou Évora «onde o PSD pretende ser governo». E deixou o alerta ao PSD: «Convém que não falem muito nessas coisas porque pois as direções nacionais dos partidos podem não gostar e depois chateiam se lá em baixo em Lisboa. Claro que não se chateiam porque são pessoas com educação são elevadas e descontam claramente estas coisas que são ditas no calor aceso da campanha eleitoral ou da pré-campanha eleitoral».




