Faz hoje 40 anos que ocorreu, em Alcafache, no concelho de Mangualde, o maior acidente ferroviário do país. Foi no dia 11 de Setembro de 1985, às 18h37, que o comboio internacional 315 e o regional 1324 chocaram com estrondo e violência, descarrilando ao longo de dezenas de metros num espaço florestal. Oficialmente, morreram 37 pessoas e mais de 170 ficaram feridas, mas o número exacto de mortos permanece uma incógnita.
Os bombeiros que participaram na operação de salvamento e o director deste jornal, que também esteve no local, depararam-se com um cenário de absoluto horror. Uma amálgama de ferros torcidos, carruagens envoltas em chamas. Muitos corpos ficaram carbonizados e nunca foram identificados. As estimativas feitas na altura por jornais, observadores oculares e outras fontes variavam entre 40 e 200 mortos.
Há vários anos que existe um memorial de homenagem às vítimas, junto ao local onde foram depositados numa vala comum muitos restos mortais. No próximo Domingo, será inaugurada, junto à lateral do monumento, uma capelinha com a imagem da “Nossa Senhora dos Emigrantes”, inspirada na Nossa Senhora dos Navegantes, mas que em vez da proa de um barco tem uma esfera a simbolizar o globo terrestre. A iniciativa partiu de uma comissão que tem organizado as homenagens anuais, liderada por José Augusto Sá, que perdeu o pai e a irmã naquele acidente, cujos corpos terão ficado carbonizados e nunca foram encontrados.
O acidente próximo do apeadeiro Moimenta-Alcafache ficou a dever-se a erro humano, mas o tribunal viria a absolver todos os acusados por inexistência de provas que pudesse levar à condenação.
A Linha da Beira Alta, por onde circulavam ambos os comboios, era uma via única, um factor que aumentava os riscos de acidentes. Naquela época, a coordenação dos comboios dependia de comunicações manuais via telefone entre as estações, o que resultava numa margem significativa para erros. No dia da tragédia, um erro de comunicação entre os operadores das estações permitiu que os dois comboios se deslocassem na mesma linha, sem que um aguardasse a passagem do outro. A falha de comunicação entre as estações foi apontada como a principal causa do acidente, expondo a fragilidade de um sistema de controle antiquado e dependente de operadores humanos.
O comboio regional deveria ficar na estação de Mangualde até fazer o cruzamento com o internacional. Contudo, «não obstante o facto de se terem dado ordens para que a prioridade na circulação fosse atribuída ao serviço internacional, o regional continuou viagem, estimando que o atraso na marcha da outra composição fosse suficiente para chegar à estação de Nelas, onde se poderia fazer o cruzamento». O internacional viajava com 18 minutos de atraso. O choque deu-se pelas 18.37 horas, a uma velocidade aproximada de 100 km/h.
O comboio internacional transportava «mais de 400 emigrantes» dos distritos de Viseu, Coimbra, Aveiro, Viana, Braga e Vila Real, que regressavam ao seu país de acolhimento depois de férias em Portugal. O número exacto de vítimas do acidente nunca foi apurado.

Universidade de Coimbra publicou em 2017 um estudo sobre o acidente de Alcafache
Em 2017, uma equipa da Série Riscos e Catástrofes Estudos Cindínicos da Universidade de Coimbra, coordenada por Luciano Lourenço, efectuou um estudo sobre o acidente de Alcafache, «com a firme convicção de que, em matéria de acidentes ferroviários» se pode «aprender com o passado».
Os responsáveis pela elaboração do estudo, explicam que este trabalho teve como objectivos «dar voz aos protagonistas que, à época, participaram tanto no socorro como na difusão da informação sobre o acidente de Alcafache»; »proceder à análise de outros acidentes ferroviários, que servem de enquadramento ao tema»; «tratar de acidentes específicos mais recentemente ocorridos em Portugal, Espanha e França»; «relatar a importância da dimensão do factor humano na segurança ferroviária» e «apresentar o actual contexto de organização do socorro às vítimas».
A multidisciplinaridade dos temas abordados neste volume permite uma boa reflexão e, ao mesmo tempo, um melhor conhecimento sobre a problemática dos acidentes ferroviários, já que ela não se circunscreve à catástrofe de Alcafache, dando assim uma visão mais global da importante temática que se apresenta nesta obra, cuja leitura a todos nos enriquecerá.
No prefácio é explicado que «a realização, em simultâneo, do X Encontro Nacional de Riscos e das Il Jornadas Técnicas da Federação dos Bombeiros do Distrito de Viseu, que tiveram lugar no dia 28 de Maio de 2016, em Viseu, propiciaram as condições necessárias ao debate dos acidentes ferroviários, com o objectivo de aprender com o passado, uma vez que se centraram no acidente de Alcafache, ocorrido trinta anos antes».
Este forum congregou alguns dos principais protagonistas que, à época, participaram tanto no socorro, como na difusão da informação daquele que ficou conhecido como acidente de Alcafache. Por outro lado, reuniu vários especialistas que não só procederam à análise de outros acidentes ferroviários, ocorridos mais recentemente, tanto em Portugal, como em Espanha e França, mas também relataram a importância da dimensão do factor humano na segurança ferroviária e apresentaram o actual contexto quer em termos mundiais, quer no que diz respeito à organização do socorro às vítimas.
Assuntos que os autores do estudo entenderam que «mereciam ser divulgados para além do ambiente confinado da Aula Magna do Instituto Politécnico de Viseu, onde se desenrolaram as sessões técnico-científicas».
O contributo recebido de alguns dos intervenientes nesse forum foi, como salienta Luciano Lourenço, «suficiente para, de uma forma indelével, deixar para a posteridade não só o relato do sucedido com o mais grave acidente ferroviário português, mas também sobre vários outros aspectos relacionados com os acidentes ferroviários».





