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Centro de Respostas Integradas (ex-CAT) da Guarda celebrou 30 anos de existência e o coordenador aproveitou para formular o desejo de que o Governo invista na área dos comportamentos aditivos e dependências

O Centro de Respostas Integradas (CRI), anteriormente designado de Centro de Apoio a Toxicodependentes (CAT), surgiu na Guarda há 30 anos. A data foi celebrada na passada Sexta-feira, num almoço comemorativo, que juntou dirigentes e técnicos, tendo também marcado presença o vogal do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), que exerce a sua actividade sobre todos os serviços dos CRI’s, desde Janeiro de 2024, na sequência da fusão do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), bem como à reestruturação das Administrações Regionais de Saúde (ARS).
Depois de enaltecer o trabalho desenvolvido por todos quantos, ao longo dos 30 anos, deram o seu contributo no serviço situado na Guarda, em plena “Praça Velha”, o coordenador no CRI da Guarda, Rui Correia, aproveitou a ocasião para formular três desejos, o primeiro dos quais, que o Governo invista na área dos comportamentos aditivos e dependências. Na sua opinião, «esta tendência de que [a situação] se resolve com penas mais duras, com umas pastilhas e umas metadonas, isto não vinga», porque, justifica, «não é assim que se trabalha nesta área». «Por isso, espero que haja políticas que projectem os comportamentos aditivos e dependências como uma área prioritária», sublinhou.
«O segundo desejo é que os serviços centrais estejam sempre bem cientes das especificidades que os territórios de baixa densidade populacional, como o da Guarda, existem e que se constituem como um desafio aos próprios serviços. É necessário do ponto de vista quer da logística, quer de recursos humanos, quer financeiros, uma atenção especial a estes territórios, pese embora a casa seja a mesma há especificidades regionais que não podemos ignorar», sustenta. E o terceiro desejo de Rui Correia foi dirigido aos colaboradores, para que tenham «muita saúde».

Rui Correia lembrou que durante estes 30 anos houve «momentos muitos momentos difíceis, que tornaram o percurso porventura mais interessante»
Num breve historial sobre o CRI da Guarda (anteriormente designado de CAT), o dirigente admitiu que durante estes 30 anos «houve muitos momentos difíceis, que tornaram o percurso porventura mais interessante». E lembrou que, em 1995, quando o serviço foi inaugurado no mesmo edifício onde ainda hoje está, em pleno coração do Centro Histórico, na zona de «maior tráfico e de consumo», «levantou alguma celeuma junto dos comerciantes que temiam um pouco que houvesse problemas». «Esta conversa de havemos sair da Praça Velha foi-se mantendo. Mas a verdade é que ainda hoje cá estamos. Temos uma convivência pacífica. Podíamos estar noutro sítio melhor mas também poderíamos estar pior. Enquanto assim estivermos e nos deixarem trabalhar cá estaremos», afirmou Rui Correia.
O coordenador do CRI contou que inicialmente foram tempos difíceis. «Com a força e energia de António Cardoso Ferreira fomos desbravando caminhos, abrimos cooperação com centros de saúde, com autarquias, fomos para as escolas. Éramos todos muito jovens. Fizemos um percurso muito interessante. Abrimos caminhos que ainda hoje se mantêm», evidencia, com regozijo, Rui Correia.
No breve historial que foi fazendo, o dirigente também recordou que, em 2002, é criado o Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT) que abarcou os CRI’s. Na sua opinião, «era um serviço moderno, ágil, preparado, que dava respostas eficientes e eficazes». Mas tudo mudaria com a extinção do IDT e a integração dos CRI’s nas ARS. «Em 2011 fomos considerados as gorduras da administração pública. Fizemos parte das gorduras. Fomos para a dieta do emagrecimento do Estado. Acabaram com o IDT e meteram-nos na ARS. Mas nunca resultou. Foram tempos muito difíceis de que não guardo boa memória», desabafou. Contou que nessa altura houve um grande desinvestimento nos serviços.
«Em 2024, o Governo decidiu criar, em boa hora, o ICAD [Instituto para os Comportamentos Aditivos e Dependências], que é onde estamos agora. Com o ICAD recuperámos este gosto por fazer, por trabalhar», referiu, realçando que o ICAD é «um serviço moderno, com gestão, com autonomia administrativa-financeira».

Dirigente do ICAD lembrou que, em 1998, antes de surgirem os centros, havia cerca de 100 mil consumidores de heroína
Manuel Cardoso, vogal do ICAD que se associou à celebração do aniversário do CRI da Guarda, recordou, por seu lado, que avançar em 1993 com a troca de seringas e, mais tarde, com a criação dos chamados centros de atendimento a toxicodependentes (CAT) não foi bem aceite na sociedade, «apesar da legislação e da Assembleia da República determinar condições para que fossem criadas estas unidades ao longo do país».
a verdade é que a sociedade não as aceitava. «Felizmente que tivemos um Governo em determinada altura, que era liderado por António Guterres, actual secretário-geral das Nações Unidas, que conseguiu transformar aquilo que era crime, discriminalizando. Deixou de ser um problema de justiça para ser um problema de saúde», salientou.
«A verdade é que, com a descriminalização em 2001, com a junção de todas as áreas de intervenção na área da toxicodependência e a criação do IDT [Instituto da Droga e da Toxicodependência], fez com que trabalhássemos todos em conjunto e conseguissemos ir preparando uma resposta que acabou por se demonstrar eficaz», realçou ainda Manuel Cardoso.
O dirigente aproveitou para recordar que «em 1998, imediatamente antes da estratégia, a maior parte das pessoas que procuravam tratamento eram consumidores de heroína e desses quase 50% consumia por via injectável». «Nessa altura, de todas as infecções VIH notificadas quase 60% era em toxicodependentes. As overdoses eram, pelo menos, uma por dia ou à volta disso. Estimava-se que teríamos à volta de 100 mil consumidores de heroína», salientou.

Manuel Cardoso evidenciou que o modelo português é reconhecido mundialmente
Contou que, «em 1999, a descriminalização teve, num primeiro momento, uma resposta muito negativa por parte das Nações Unidas, tendo havido diversas visitas a Portugal para confirmar se não havia qualquer infracção das convenções. Dez anos depois, «o relatório das Nações Unidas diz, pela primeira vez, que talvez» Portugal não estivesse a infringir e que talvez fosse de louvar. Isso veio a ser reconhecido em 2016 pelas mesmas Nações Unidas». «A verdade é que esta evolução fez com que, 10/15 anos depois, a população em Portugal com problemas relacionados com o consumo de heroína baixasse para 0,3%, o número de pessoas que consome por via não venosa reduziu para os cerca de 3% e o VIH reduziu para 2,4%», afirmou, com orgulho, o dirigente, realçando que «o modelo português é reconhecido mundialmente, apesar desses tempos conturbados de passagem para ARS. «Aquilo que gastamos em tratar e o que gastamos em punir é uma diferença brutal».
O dirigente informou depois que, aquando da passagem do serviço para o ICAD, há cerca de ano e meio, o levantamento que foi feito sobre o número de pessoas que estavam à espera para serem atendidas apontou para a existência de, à semelhança de 1998, 2300 pessoas para atendimento em ambulatório.
Manuel Cardoso revelou que da avaliação feita até 30 de Junho – que seria apresentada esta Terça-feira -, se pode concluir que «foi possível ultrapassar todos os objectivos, que eram absolutamente ambiciosos». Um resultado que, como fez questão de evidenciar, se deve «à capacidade, empenho e dedicação» de todos os profissionais.

Dados estatísticos sobre a actividade no CRI da Guarda em 2024

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