Surgiu na pequena aldeia de Cabreira do Côa, no concelho de Almeida, em Outubro de 2000 com a preocupação de criar condições de vida o mais “normais” e verdadeiras possíveis para as pessoas necessitadas de cuidados especiais, por forma a que o seu futuro seja impregnado com a dignidade e respeito que merecem. O aparecimento da Associação Sócio-Terapêutica de Almeida (ASTA) foi o concretizar de um sonho de Maria José Dinis, mãe de um jovem com deficiência mental. Hoje, passados 25 anos, a fundadora tem um outro sonho: ver surgirem mais comunidades terapêuticas como a ASTA.
A Associação Socio-Terapeuta de Almeida (ASTA) surgiu há 25 anos na pequena aldeia de Cabreira do Côa. Foi o concretizar de um sonho que Maria José Dinis (mãe de um jovem com deficência mental) tinha «idealizado há muito», disse na altura, confessando que tinha sido «difícil e de uma grande luta», tendo, por isso mesmo «uma grande importância».
«No fundo de mim, havia esta quase certeza de que a ASTA seria a coisa certa no momento certo e no sítio certo», disse ao jornal “Todas as Beiras” a fundadora da associação, no final do espectáculo “Nós em Voz”, sob a direcção artística de Tiago Sami Pereira, que encheu no Sábado o grande auditório do Teatro Municipal da Guarda (TMG).
Com o surgimento da ASTA, a pequena aldeia do concelho de Almeida duplicou e «o respeito pelo outro e pela diferença aconteceu», referiu, realçando que «isto não é inclusão politicamente correcta, é inclusão espontânea e natural». Hoje, passados 25 anos da fundação da associação, Maria José Dinis tem um outro sonho: ver surgirem mais comunidades terapêuticas como a ASTA. «No fundo, o meu sonho presente era que isto acontecesse em muitos sítios, de uma forma espontânea e natural» e que houvesse «mais “ASTA´s” no nosso Interior», evidenciou.
A dirigente da associação defende que devia haver mais instituições a aproveitarem espaços comuns das aldeias e «há tantos no nosso país a serem abandonados – então no Interior nem se fala -, em que tudo seria muito menos oneroso que numa cidade e em que há mais saúde e o próprio ar é terapêutico».
Ter mais um núcleo familiar seria a prenda desejada neste 25 anos da ASTA
Este é um dos sonhos que Maria José Dinis gostaria de ver concretizado, mas, como prenda pela passagem dos 25 anos de existência da associação, queria que a ASTA tivesse, «pelo menos, mais um núcleo familiar para cinco companheiros e companheiras, que estão em treino de autonomização, para que se pudesse dar lugar a mais cinco na Casa da Fonte, que fossem mais dependentes».
Num breve balanço da situação da associação, a fundadora informou que «continua a caminhar com todas as dificuldades inerentes» pelas quais todas as instituições passam nesta altura. «Alguns medos, algumas dúvidas. O que será de nós no futuro? O que é que se passa em relação às pessoas com deficiência? Nós conhecemos determinado tipo de pessoas com deficiência e sabemos das necessidades delas. Vão ser ajudadas? Vão ser tidas em conta em termos de futuro? Não sabemos e temos algum receio, sim», afirma Maria José Dinis. E o receio vai crescendo. É que, explica, «ironicamente, as pessoas pensavam que as pessoas com deficiência iam desaparecer com o tempo, com os diagnósticos precoces, mas não, cada vez mais há pedidos de todo o país, há uma tendência em crescendo». «E isso preocupa-nos porque não temos resposta. Portanto, é preciso fazer alguma coisa a esse nível, não temos dúvida nenhuma. E o Ministério das Segurança Social terá – não sei se o está a fazer – que se debruçar, de uma forma profunda, sobre esta questão», considera a fundadora da ASTA.
Na sua opinião, deviam surgir mais instituições com a preocupação de, tal como a associação que dirige, criar condições para que «as pessoas necessitadas de cuidados especiais possam ter uma alternativa de vida válida e plena de sentido, de contribuir para a integração social, humana e económica dessas pessoas e esforçar-se em criar para elas, condições de vida o mais “normais” e verdadeiras possíveis por forma a que o seu futuro seja impregnado com a dignidade e respeito que merecem, numa perspectiva bio-psico-social e espiritual».
Apresentar o espectáculo no grande auditório do TMG foi «importante» para todos os «companheiros» da ASTA
«Toda a gente tem capacidade para fazer coisas, seja quem for, seja o que for. Há sempre alguma coisa que sabemos fazer, nem que seja só com o olhar. Este sentido de fazer algo para os outros, de ser útil naquilo que faço. Todos podem ser útil naquilo que fazem, mesmo que demore três meses a fazer um banco na carpintaria, ou quatro, ou cinco, ou um ano», afirma Maria José Dinis no testemunho que surge no documentário “Cabreira: a Aldeia dos Companheiros” sobre a ASTA, produzido pela equipa dos “@rostosdaaldeia”, que em meados deste ano foi premiado com a Medalha de Prata no festival do filme de turismo internacional na África do Sul e que foi transmitido no passado Sábado na grande tela do TMG.
A performance “Nós em Voz”, sob a direcção artística de Tiago Sami Pereira, apresentada na noite de Sábado no Teatro Municipal da Guarda (TMG) é demonstrativo do trabalho sócio-terapêutico que é desenvolvido pela ASTA. O facto deste espectáculo ter tido como palco o grande auditório do TMG, que ficou repleto, foi «algo de importante», não só porque a Guarda é a capital do distrito mas também porque foi nesta cidade que a associação iniciou as suas actividades culturais e onde foi «acolhida por muita gente», incluindo «a própria Segurança Social que foi a primeira a dizer um “okay” ao projecto ASTA».
«A arte, o teatro, a música é uma constante em vários sítios mas só uma vez é que vieram ao TMG com a música do “Queremos mudar o mundo”. E foi no pequeno auditório. Ora este grande auditório é outra dimensão, é outra responsabilidade, é outra grandiosidade que os enaltece, os envaidece e lhes faz muitíssimo bem», evidenciou Maria José Dinis.
E acrescentou: «O facto de virem todos os dias esta semana ensaiar no grande palco foi para eles algo diferente. Um passo diferente que talvez tenha bastante influência até na sua forma de ver os outros, de ver o espectáculo e a responsabilidade de fazer coisas para os outros passe a ser diferente».
ASTA foi fundada em 1998 e iniciou actividade dois anos depois
A ASTA foi fundada (juridicamente) em 26 de Outubro de 1998 por Maria José Dinis da Fonseca (mãe de um jovem com deficiência mental). Iniciou as actividades em Outubro de 2000 com 6 jovens na casa da fundadora, na aldeia onde nasceu, Cabreira do Côa, concelho de Almeida.
Como é referido no site daquela instituição particular de solidariedade social, «a visão que norteia a ASTA é a de oferecer às pessoas necessitadas de cuidados especiais (essencialmente jovens a partir dos 18 anos com deficiência intelectual – DID e multideficiência) uma alternativa de vida válida e plena de sentido; contribuir para a integração social, humana e económica dessas pessoas e esforçar-se em criar para elas, condições de vida o mais “normais” e verdadeiras possíveis por forma a que o seu futuro seja impregnado com a dignidade e respeito que merecem, numa perspectiva bio-psico-social e espiritual». «O trabalho sócio-terapêutico, desenrola-se nas valências Lar Residencial, Residências Familiares e Centro de Actividades Ocupacionais, distribuídos entre a aldeia da Cabreira e o centro de raiz (desde 2004) no alto da Fonte Salgueira a um quilómetro da aldeia», adianta a instituição.







