O Pavilhão Rainha D. Amélia, parte integrante do conjunto sanatorial projectado por Raúl
Lino no início do século XX, foi consumido, na madrugada de 16 de outubro de 2025,
por um incêndio de grandes proporções. A tragédia deixou o seu interior reduzido a
cinzas, parecendo as fachadas ter resistido ao fogo. Contudo, a verdadeira perda
ultrapassa o visível: ardeu a alma de um património cuja agonia foi longa, anunciada e
negligenciada.
Concebido originalmente como pavilhão para o tratamento da tuberculose, o Pavilhão
Rainha D. Amélia terá cessado funções sanitárias entre 1955 e 1960, permanecendo
abandonado há cerca de 70 anos. Durante este tempo, nenhuma intervenção efectiva foi
levada a cabo, apesar da sua importância arquitectónica, sanitária e histórica. Classificado
como parte de um conjunto de interesse público em 2014, o edifício tem sido alvo de
promessas incumpridas, projectos adiados e uma continuada inacção por parte das
entidades públicas.
A queda da cobertura, ocorrida há vários anos, expôs o interior às intempéries serranas –
ventos, chuvas, neves. Em vez de obras de consolidação, apenas chegou a degradação.
Como reconhece a moção aprovada pela Assembleia Municipal da Guarda, por
unanimidade, em 27 de Junho de 2025, “os guardenses manifestam descontentamento
face à degradação e negligência dos pavilhões históricos de Raul Lino, no Parque da
Saúde da Guarda, um património arquitectural que é identitário da cidade”.
Em 2008, aquando das comemorações do centenário do Sanatório Sousa Martins, o estado
de abandono do pavilhão já era evidente. Desde então, nada mudou. Em 2022, chegou a
ser celebrado um protocolo entre a ULS da Guarda e a Câmara Municipal da Guarda para
financiar um projecto de reabilitação. Tal protocolo, porém, ficou por concretizar,
perpetuando-se o impasse burocrático e a falta de vontade política.
Este incêndio não é uma tragédia isolada. É o corolário de décadas de omissão
institucional e da incapacidade de reconhecer que o património não é um fardo mas, sim,
parte integrante da história social e simbólica da comunidade. Como nos lembra a
doutrina contemporânea do património, os edifícios também definham, envelhecem e
morrem, a menos que sejam objecto de acções de preservação resultantes de uma vontade
política efectiva.
No entanto, apesar da destruição interior, as estruturas exteriores mantêm-se
aparentemente estáveis. Ainda é possível intervir. Ainda se pode evitar a ruína total. Para
isso é preciso mais do que uma indignação pontual. É preciso a acção firme e articulada
da ULS da Guarda e da Câmara Municipal, com o apoio da Secretaria de Estado da
Cultura e de todas as entidades responsáveis pela salvaguarda do património.
Este não é um apelo sentimental. É um clamor fundado na lei e na justiça patrimonial.
Não pedimos favores. Exigimos respeito. Respeito por um edifício que, pela sua história,
pela sua arquitectura e pela sua função original, merece ser tratado com dignidade e
devolvido à cidade, para vida e uso.
O edifício Rainha D. Amélia, assim como os restantes edifícios do conjunto do Sanatório
projectado por Raul Lino, não pode ser deixado morrer, transformado num não-lugar,
esvaziado de memória, de função e de dignidade.
Que a dor da perda de hoje seja o início da reabilitação que tanto se aguarda. Que a tragédia de 16 de Outubro seja o ponto de viragem. Ainda vamos a tempo – mas sem tempo a perder.
Luísa Queiroz de Campos (PATRIMÓNIO.Guarda – Associação para o Estudo, a Divulgação e a Salvaguarda do Património Cultural e Ambiental da Guarda)




