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“Magusto da Velha” em Aldeia Viçosa no dia a seguir ao Natal 

A Junta de Freguesia de Aldeia Viçosa, no concelho da Guarda, promove, no dia a seguir ao Natal, o tradicional “Magusto da Velha”. Do cimo do campanário da Igreja serão atiradas castanhas, que os habitantes e visitantes apanham avidamente, enquanto que os sinos repicam insistentemente.

Este evento secular, que se comemora todos os anos no dia a seguir ao Natal, é uma espécie de homenagem a uma “senhora” que terá deixado à freguesia castanhas para serem distribuídas pelos pobres e que a Junta de Freguesia local recebeu como legado. Além de uma renda perpétua, deixou à autarquia uma insólita comemoração popular que perdura no tempo. 

De acordo com o programa deste ano, Sexta-feira, pelas 14h30, haverá missa pela “Alma da Velha”, seguindo-se a dramatização medieval do Testamento pela Associação Hereditas e o cortejo temático. Pelas 16 horas, serão lançadas do alto do campanário castanhas e rebuçados, com o toque a rebate, enquanto no adro da igreja se realizam as cavaladas e o tradicional Madeiro de Natal. Haverá depois o aconchego torradas com azeite e creme de castanhas da Velha.

Reza a história que uma velha muito velha, e muito rica, e amiga da folia, deixou um grande legado à Igreja da Vila do Porco, actual Aldeia Viçosa. Mas, para pôr a sua alma em bom recato, não deixou de exigir que, no final da festa que fariam com a sua dádiva, todos rezassem pela sua alma, um Padre Nosso todos os anos, volvido o Natal. Para garantir que a velha cumpria a dívida, até foram lavradas escrituras com a sua exigência.

A Junta de Freguesia, que é quem actualmente recebe o legado da velha, deposita nos seus cofres a inusitada quantia de doze cêntimos, cada três meses.

Ainda que hoje pouco ou nada valha o legado da velha, tempos houve em que os doze cêntimos eram uma pequena fortuna.

Numa nota informativa enviada ao jornal “Todas as Beiras”, a organização adianta que está em andamento a candidatura para inscrição na Rede Nacional do Património Cultural Imaterial.

Historiador Daniel Martins defende que Guiomar Gil é a benfeitora 

Esta tradição, única no mundo, ficou reforçada, no ano anterior, com a apresentação do livro “Magusto da Velha, Uma Pitança pelo Bem da Alma”, do historiador Daniel Martins, que defende que Guiomar Gil, da Casa de Riba Vizela, e monja do Mosteiro de Arouca, é a benfeitora que fez o testamento com o povo, no longínquo século XIV, para que sejam distribuídos castanhas e vinho pelo povo, no dia 26 de Dezembro. 

A obra foi o culminar de um desafio lançado pela Junta de Freguesia há alguns anos, com o objectivo de ser desvendada a origem desta secular tradição e a identidade da misteriosa “Velha” O historiador investigou a origem desta tradição, assim como as origens e identidade da benemérita, que foi monja no Mosteiro de Arouca, ao qual doou as suas propriedades no Vale do Mondego.

“D. Guiomar Gil de Riba de Vizela nasceu numa das famílias mais prestigiadas do reino de Portugal, cuja linhagem desempenhou papéis fundamentais na política e sociedade dos séculos XIII e XIV”, refere Daniel Martins, adiantando que a “velha” era filha de Gil Martins de Riba de Vizela e Maria Anes da Maia, tendo herdado “não apenas a influência de sua poderosa casa, mas também o legado de alianças estratégicas que colocaram a família em posições de destaque tanto em Portugal quanto no reino de Castela”.

“A análise das propriedades de Guiomar Gil, e a sua posterior trajectória ao longo dos séculos, revela uma complexa dinâmica de posse, transmissão e escambo, marcada por uma constante tensão entre obrigações espirituais, interesses institucionais e a adaptação às realidades locais”, refere o historiador, acrescentando que “ao legar suas propriedades ao Mosteiro de Arouca, condicionou essa doação a obrigações religiosas claras: a celebração de refeições em sua memória e preces pela sua alma”. “A ameaça de punição divina, explícita no seu testamento, reflecte a seriedade com que encarava o cumprimento dessas obrigações”, considera Daniel Martins.

O autor do livro entende ainda que “o percurso dos bens demonstra mudanças significativas no uso e na posse, adaptando-se as necessidades e circunstâncias da época”.

“Após serem emprestados ao sobrinho de Guiomar, D. Martim Gil de Sousa, em 1305, os bens passaram por uma série de arrendamentos e, ao longo de séculos foram gradualmentetransferidos do Mosteiro de Arouca para a Igreja de Santa Maria de Porco”, revela Daniel Martins, adiantando que, “embora o cumprimento da última vontade de Guiomar Gil pareça inicialmente ter sido responsabilidade do Mosteiro, os manuscritos sugerem que a Igreja de Santa Maria de Porco assumiu essa obrigação após a transferência das propriedades”.

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