“Lugares assombrados” e “Obras azarentas” da região Centro
Aproveitando o “Dia das Bruxas” (halloween), o jornal “Todas as Beiras” inicia a publicação de trabalhos jornalísticos sobre alguns locais que são popularmente rotulados de “assombrados”, mas também serão abordadas obras que estiveram ou ainda estão envoltas em azar. Começaremos por um dos locais simbólicos da Guarda: o “Quintal Medroso”, que existia no centro histórico, próximo da Torre de Menagem. Amanhã, daremos a conhecer a história de uma casa em Lagarinhos (concelho de Gouveia), que até faz parte de um livro sobre o Portugal assombrado.
Onde actualmente está a sede a Comissão Vitivinícola da Região da Beira Interior (CVRBI) chegou a existir o jardim do antigo Solar Teles de Vasconcelos, no centro histórico da Guarda, que era conhecido como “Quintal Medroso” e que «servia de refúgio de estudantes destemidos que nos intervalos das aulas exploravam o quintal e a sua casa então queimada», contou Susana Adaixo num dos vários textos sobre “Lugares de Medo”, publicados em 2000, no jornal “Terras da Beira” (extinto em Janeiro de 2023). A então jornalista contava ainda que havia quem afiançasse que naquele lugar terá ocorrido um horrível assassinato.
O arquitecto António Carvalho que foi o autor da obra “Casa de Chá”, que chegou a concretizar-se naquele local antes da sede da CVRBI, contou que já depois de ter elaborado o projecto ouviu dizer que «ali tinha morrido misteriosamente Teles de Vasconcelos, o dono da casa e do quintal», embora duvidasse que isso fosse uma certeza. Certo é que todas as histórias em redor daquele espaço e o filme de terror “Shining” de Stanly Kubrick serviram de inspiração para o seu projecto, que incluía um edifício e um labirinto de arbusto.
António Carvalho lembra-se de, em criança, ter muitas vezes explorado o local com um grupo de amigos. «Umas vezes a porta que dava acesso ao quintal estava aberta, outras vezes fechada», recordou, em declarações a Susana Adaixo, adiantando que para ele e «para muitas gerações que conviveram com aquele espaço, enquanto estava abandonado, era um lugar de arrepiar». Naquela altura o quintal medroso estava praticamente em ruínas e a casa ardera. Surpreendentemente ao invés de criar repulsa, tornou-se um lugar de culto, refere Susana Adaixo.
No texto constam também declarações de Maria do Céu Oliveira, que viveu no Solar Teles de Vasconcelos em criança, na altura com seis anos, e que era a filha da criada, a afilhada do dono do solar e a encarregada de «entreter o menino, o filho mais novo dos padrinhos». Referiu ela que o quintal era o seu sítio predilecto para a brincadeira e que o medo nunca morou para aqueles lados. Maria do Céu recordou «o grande pomar que ali existia, recheado de pereiras e de macieiras, bem como o jardim, com camélias, rosas e hortênsias floridas, tratado pelo seu pai, jardineiro da casa nas horas vagas».






