Há instituições que fazem a diferença, criam emprego, atraem investimento e transformam vidas. A CERCIG é um desses exemplos. Quando o trabalho dá frutos, o desafio deve ser encontrar formas de fazer ainda mais e melhor, porque o futuro da Guarda constrói-se em conjunto.
Há instituições que cumprem a sua missão. E há outras que vão mais longe: criam oportunidades, geram emprego, captam investimento e transformam o território onde estão inseridas.
A CERCIG, na Guarda, é um desses exemplos.
Tenho acompanhado com particular interesse o caminho desta cooperativa, que não se limita às respostas sociais tradicionais. Procura financiamentos, apresenta projetos, investe, recupera património e desenvolve novas respostas para problemas concretos.
É isto que espero de uma instituição moderna da economia social.
Os números ajudam a perceber a dimensão deste trabalho: mais de 1.000 pessoas apoiadas, mais de 90 colaboradores, mais de 14 respostas sociais e serviços e cerca de 4,76 milhões de euros de financiamento atribuído através do PRR, distribuídos por nove projetos.
Habitação colaborativa, cuidados continuados, alojamento temporário, inclusão e melhoria de equipamentos sociais.
Não estamos a falar apenas de subsídios. Estamos a falar de investimento, emprego, dignidade e riqueza que fica no território.
Da Guarda até Mondragón
Há muitos anos que olho com admiração para o modelo cooperativo de Mondragón, no País Basco, um grupo que integra empresas industriais, comerciais e financeiras, onde encontramos marcas como a Fagor.
O que me fascina neste modelo não é apenas a sua dimensão económica. É a filosofia.
As cooperativas não têm de viver eternamente numa lógica de dependência. Podem criar valor, gerar receitas, reinvestir e tornar-se progressivamente mais sustentáveis.
Naturalmente, sustentabilidade não significa ausência de financiamento público, sobretudo quando falamos de serviços sociais essenciais.
Significa saber combinar recursos, profissionalizar a gestão, inovar e construir projetos duradouros.
E é precisamente isso que vejo na CERCIG: uma instituição que não fica à espera de que as coisas aconteçam. Faz acontecer.
O silêncio de quem defende 20 anos de trabalho
Entretanto, deparei-me com uma notícia que me deixou a pensar.
O Município da Guarda estará a preparar o fim de um protocolo com a CERCIG, uma colaboração com cerca de 20 anos, que envolve o acompanhamento social de centenas de famílias.
Segundo a informação publicada, a autarquia considera que poderá assumir diretamente estas competências, com uma poupança estimada de cerca de 200 mil euros anuais.
E houve uma imagem que me marcou.
Os trabalhadores da CERCIG manifestaram-se. Calmamente. Em silêncio. Com dignidade.
Não estavam apenas a defender uma valência ou os seus postos de trabalho. Estavam a defender duas décadas de experiência, dedicação e relações humanas construídas com famílias em situações de vulnerabilidade.
Porque a confiança não se constrói por decreto, não se transfere por despacho e não se mede apenas em euros.
Vinte anos representam milhares de atendimentos, problemas resolvidos e histórias que nunca chegarão às páginas dos jornais.
Esse património é da comunidade.
E, às vezes, quem fala mais alto é precisamente quem protesta em silêncio.
Será que poupar é sempre criar valor?
Não conheço todos os fundamentos técnicos da decisão municipal e reconheço que os recursos públicos devem ser geridos com rigor.
Rever protocolos, avaliar resultados e procurar maior eficiência faz parte de uma boa gestão.
Mas deixo uma pergunta:
Será que poupar 200 mil euros significa necessariamente criar 200 mil euros de valor?
Uma estrutura municipal poderá certamente desempenhar estas funções. Importa perceber se o fará com igual ou melhor qualidade, garantindo a proximidade e a continuidade do acompanhamento às famílias.
Porque uma coisa é reduzir despesa. Outra é melhorar o serviço prestado à comunidade.
E quando temos uma instituição que demonstra capacidade para captar investimento, criar emprego e desenvolver novas respostas, não será mais interessante procurar formas de potenciar esse trabalho?
As instituições não devem ser avaliadas apenas pelo que custam, mas também pelo valor que criam.
E porque não mais uma conversa?
As lutas dos trabalhadores são legítimas. As preocupações da instituição também. E o Município tem o direito e a responsabilidade de avaliar a forma como organiza os seus serviços.
Mas será que todas as possibilidades de entendimento estão esgotadas?
Porque não mais uma reunião entre o presidente da Câmara Municipal da Guarda e o presidente da CERCIG?
Mais uma conversa. Mais uma tentativa. Mais uma oportunidade para encontrar uma solução.
Há momentos em que vale a pena fazer um esforço adicional. E há cedências que não representam derrotas, mas demonstrações de bom senso.
Mais importante do que perceber quem tem razão é encontrar uma solução em que ninguém tenha de sair a perder.
Porque, quando um diferendo institucional se transforma num conflito, podemos entrar num caminho do qual ninguém sai vencedor.
A CERCIG merece esse esforço. O Município também. E a cidade, sobretudo.
Vinte anos de trabalho conjunto merecem, pelo menos, mais uma oportunidade de diálogo.
Mais carvão na máquina!
Na Guarda, passamos demasiado tempo a lamentar o investimento que não chega, as empresas que não aparecem e as oportunidades que perdemos.
Depois, quando temos organizações capazes de mobilizar recursos, gerar emprego e concretizar projetos, devemos procurar criar condições para que continuem a crescer.
A economia social não é uma atividade menor, nem um parente pobre da economia tradicional.
É economia. Cria emprego, paga salários, contrata fornecedores, investe e gera valor. E tem ainda uma vantagem extraordinária: o seu sucesso mede-se também pelas vidas que transforma.
Reconheço o trabalho extraordinário de dirigentes, trabalhadores e cooperantes da CERCIG, mas também o papel que o Município da Guarda tem desempenhado, ao longo dos anos, enquanto parceiro das instituições sociais.
Não precisamos de escolher entre uma autarquia forte e instituições fortes.
Precisamos das duas. A trabalhar em conjunto.
E deixo uma última reflexão.
Quando temos uma máquina que funciona, que cria emprego, que atrai investimento e que ajuda pessoas, a primeira preocupação não deveria ser retirar-lhe carvão.
Deveria ser perceber como podemos alimentá-la para chegar ainda mais longe.
Porque o futuro da Guarda constrói-se com aquilo que todos conseguimos fazer juntos.
E quando o objetivo é melhorar a vida das pessoas, há sempre espaço para colocar mais carvão na máquina.




