César Prata e Maria Isabel Mendonça, que formam o projecto “Ningue Ningue”, têm estado a preparar o próximo disco, baseado em canções recolhidas pelo padre António Morais na zona da Serra da Estrela, com especial incidência em Gouveia, Seia, Folgosinho e Cativelos. A dupla já tinha editado os discos “Ningue Ningue” (2020) e “No Paço e no Terreiro” (2022).
Este novo trabalho, que deverá estar pronto no início do próximo ano, terá 13 temas tradicionais, que ao longo dos anos foram recolhidos pelo padre e que depois cedeu a Maria Isabel Mendonça para serem trabalhados, contou César Prata ao jornal “Todas as Beiras”, adiantando que «é um disco muito ligado ao território. Há canções de trabalho, de malhas por exemplo, outras de janeiras e de Natal».
«O padre Morais tinha tudo, partituras, estudos ecológicos sobre aquilo que era e que não era», informou, explicando que foram depois eles que fizeram «os arranjos para esses temas, introduzindo violinos, guitarras e outras cordas». César Prata salienta que este disco será «um reconhecimento por todo o trabalho, por tudo aquilo que ele tem feito também na Federação de Folclore».
Sobre a situação ao nível de contratações para fazerem concertos, o músico sente alguma revolta pelo facto de «as câmaras, que são os maiores programadores», tenham gasto muito dinheiro nestes meses antes das eleições autárquicas mas com músicos como o Tony Carreira, Calema e Toy, entre outros, deixando de lado grupos como o Ningue Ningue, por exemplo. «É muito difícil fazermos esse trabalho de divulgação e de conseguir tocar», lamenta.
Ningue Ningue tem editado dois discos
Ningue Ningue é um projecto musical de César Prata, em duo com Maria Isabel Mendonça, que se dedica à renovação de antigas canções portuguesas e outras músicas do mundo. O primeiro disco, intitulado “Ningue Ningue”, foi editado em Julho de 2020, com uma tiragem limitada de 300 exemplares. O desenho do disco foi concebido pelos próprios, preconizando uma abordagem ambientalista e culturalista transparecida na estética das fotografias e dos desenhos da aldeia de Maceira (Fornos de Algodres) registados por Maria Isabel Mendonça.
Dois anos e meio depois, é lançado o disco “No paço e no terreiro”, que reúne música de compositores anónimos dos séculos XVI e XVII, de César Prata, Maria Isabel Mendonça e tradicional e letras de anónimos dos séculos XIII, XVI e XVII, de Afonso X, Pêro Garcia e D. Dinis.
César Prata fundou e dirigiu diversas associações culturais e trabalhou com inúmeras colectividades no âmbito da recolha do património imaterial. Criou e dirigiu diversos espectáculos e orientou oficinas de formação na área da música: instrumentos tradicionais, cultura popular e informática musical. O seu nome encontra-se ligado a inúmeros discos, quer como compositor, arranjador, criador, intérprete ou técnico dos quais se destacam ”Chuchurumel”, “Assobio”, “Chukas” (encomenda do IGESPAR para o Parque Arqueológico do Vale do Côa), e “Cantos de cego da Galiza e Portugal” (edição de aCentral Folque, Santiago de Compostela, 2016).
Por seu lado, Maria Isabel Mendonça é arquitecta e investigadora. Na área da música, criou, dirigiu e executou (violino, piano e/ou voz) em diversos espectáculos. É membro da direção artística do Festival de Piano da Serra da Estrela. Em 2017, fundou o projecto de música de câmara “Re:Flexus Trio” – uma formação constituída também pela clarinetista Ana Sofia Matos e pela violetista Mariana Morais.
No âmbito da música tradicional, interpretou e dirigiu espectáculos com o Rancho Folclórico de Paranhos da Beira (Seia) e a Tuna de Figueiredo (Seia). É observadora do Conselho Técnico Regional da Beira Alta Serrana da Federação do Folclore Português, desde Março de 2023. Integra o projecto “Ningue Ningue”, juntamente com César Prata.
Quem é o padre António Morais?
António José de Oliveira Morais nasceu a 12 de fevereiro de 1941, na freguesia de Cativelos, concelho de Gouveia, tendo, aos 11 anos, ingressado no seminário do Fundão onde iniciou os estudos conducentes ao sacerdócio. Em 1965 é ordenado sacerdote em Gouveia pelo bispo D. Policarpo da Costa Vaz.
Nesse mesmo ano inicia funções enquanto professor no Seminário do Fundão e dois anos depois é nomeado pároco para as freguesias de Terrenho e Castanheira, em Trancoso. Em 1971, o seu percurso eclesiástico começa a ser feito em várias freguesias do concelho Gouveia. Para além desta funções, o padre António Morais tornou-se um símbolo da cultura e da vivência tradicional daquela região, lutando pela preservação da identidade e construção de uma memória colectiva.




