Há mais de duas décadas que não subo a São Lourenço.
Costumava fazê-lo em muitos finais de tarde, de bicicleta, qualquer que fosse a estação do
ano.
São Lourenço, tem, para mim, a capela mais bonita do mundo. Uma capela que se ergue entre carvalhos, grandes, para não dizer enormes, que a guardam, a ela e ao Santo que lhe dá nome, como se fosse essa a responsabilidade dada por quem manda nos destinos do Universo.
Não sei, e talvez nunca o venhamos a saber, se foi num dia de solstício de verão, ao ver o sol nascer no alto daquela encosta, que o Santo se apaixonou e resolveu fugir do seu espaço para “amuar”, até que ali lhe fizessem aquela simples capela.
Uma capela que se confunde com uma corte de pastores e que por ali se aguenta há mais de 3 séculos, vigiando Manteigas e lembrando, a cada solstício de verão, que aquele é um lugar mítico e místico.
Talvez pela magia do lugar, em cada subida a São Lourenço encontrava sempre um novo
motivo para parar e olhar a vila nas janelas que se abriam na vegetação abundante que a cada outono me presenteava com cores de oiro e fogo, para logo se despir e vestir de branco, até que o verde renascesse.
As mesmas cores que me acompanhavam na descida até São Gabriel e que via prolongarem-se pela encosta de Leandres, despertando a curiosidade de saber como se vestiria o Poço do Inferno a cada época.
Raramente no meu caminho me cruzava com alguém, ou talvez só com o Tó, amigo de
infância, pastor de rebanhos que vive por ali, no vale, com a família, o que levava a conversa prolongada.
A galinha dos ovos de ouro, as faias, jaziam adormecidas aos pés de São Lourenço, o Santo a quem hoje devemos pedir a proteção daquele lugar, enquanto lembramos aos que visitam a sua encosta, que por ali nada mais tirem que fotografias e nada mais deixem que pegadas.
Todos agradecemos.




