A pasta, jaz adormecida no canto do quarto, que os deveres hão-de ficar para depois do Ano Novo.
A escola terminou e é chegada agora a altura de ir pela mata fora arrancar musgos grandes e cortar um pinheiro redondinho que depois, fruto de amor e paciência, servirão de cenário às figuras do presépio.
No jardim, à entrada da vila, os homens da câmara estenderam já, na árvore grande, as letras que hão de anunciar “Feliz Natal” e que se acenderão quando a noite descer da serra.
A frase parecerá ainda mais brilhante quando sairmos de casa, na noite fria, ao subir à igreja matriz para a missa do galo.
O sono acabará por vencer a ansiedade, mas a alvorada será rápida. O coração inquieto obriga a que se procure no presépio o que a visita da noite trouxe.
As moedas, que se juntaram no mealheiro durante o ano, servirão para a compra dos fulminantes na papelaria do Sr. Zé (na verdade a Papelaria Progresso) que aturará por estes dias as nossas incursões, noturnas e diurnas para alimentar as pistolas que se pediram ao Menino Jesus. Durante meses sonhávamos com elas para recrearmos batalhas vistas nas fitas passadas no Cine Sonoro Estrela.
A tarde de Natal terminava aí, numa matiné que tinha como protagonistas Joselito ou Marisol e se prolongava até que a noite caísse e o brilho das estrelas, ou os farrapos brancos, mostrassem que o dia mágico chegava ao fim.
O cansaço metia as pistolas nos coldres e lambiam-se os últimos chocolates antes que os olhos se cerrassem e os sonhos corressem a mente, já na esperança de um novo Natal.
Um Natal que chega agora e nos deixa pouca esperança quando os noticiários se enchem de ódios, guerras e desrespeito pelos homens e planeta.
Talvez por isso cerre os olhos e peça ao Menino que por estes dias toque, mais que os corações, o cérebro de muitos homens e lhes sopre baixinho ao ouvido que nasceu para que o Mundo fosse melhor.
Feliz Natal.




