No próximo Domingo, os comboios vão poder voltar a circular entre a Pampilhosa e a Guarda. Mas, o investimento de mais de 670 milhões de euros não veio beneficiar os tempos de percurso entre Lisboa e a Guarda. Comparativamente a 2009, o ganho é residual ou, nalguns casos, não há mesmo qualquer diferença.
Após 42 meses de obras de requalificação, mais 33 meses do que o inicialmente previsto, a Linha da Beira Alta reabre na totalidade no próximo Domingo mas, contrariamente ao que se poderia pensar, a diferença do tempo de viagem entre Lisboa e a Guarda, antes e após as obras, não é significativa, sendo apenas de 15 minutos, embora no sentido contrário-ultrapasse os 20 minutos. Por exemplo, em Outubro de 2021, o comboio Intercidades das 6h55 minutos entre Guarda e Lisboa demorava 4h35 e agora fará o percurso em 4h12 minutos.
Mas, se recuarmos a Junho de 2009, as diferenças são residuais, não ultrapassando os quatro minutos e num dos horários chega mesmo a ser igual, como é o caso do comboio Intercidades que partia de Lisboa às 18h28 e chegava à Guarda às 22h39, demorando 4h11 minutos. A partir de Domingo, a viagem que começará às 18h30 chegará ao destino às 22h41, não se notando qualquer diferença no tempo de viagem comparativamente a 2009. Se tivermos apenas em conta o percurso entre a Pampilhosa e a Guarda, o ganho no tempo de viagem entre Junho de 2009 e Setembro de 2025 é muito pouco relevante, variando entre 1 e 7 minutos.
Na edição de hoje, o jornal “Público” vai mais longe e chega mesmo a fazer comparações com o que se passava há 40 anos, em 1985, o ano do acidente de Alcafache. Recorda o jornal que «a viagem de comboio mais rápida entre Lisboa e a cidade mais alta de Portugal demorava 5 horas e 17 minutos. Saía-se de Santa Apolónia às 7h35 e chegava-se à Guarda às 12h52. Na Pampilhosa o comboio mudava de uma locomotiva eléctrica para uma a diesel que, ronceiramente, subia a Beira Alta a uma média de 67 km/h».
O jornalista Carlos Cipriano, que habitualmente aborda temas relacionados com a ferrovia, refere na notícia que, «ainda assim, esta viagem era uma hora mais rápida do que duas décadas antes quando, em 1967, Lisboa e Guarda sobre carris estavam à distância de 6 horas e 32 minutos».
«No fim do século XX, já com a linha em obras de modernização (que contemplaram a sua electrificação e a instalação de sinalização electrónica), o mesmo percurso fazia-se em 5 horas e 5 minutos», refere o jornalista, adiantando que «a conclusão da modernização, em 1997, permitiu reduzir substancialmente a distância entre a Beira Alta e a capital» e que, «agora, com tracção eléctrica e sem mudança de locomotiva, a viagem demorava, em 2001, apenas 4 horas e 15 minutos».
Carlos Cipriano escreve ainda que o site “Viajar Sobre Carris” conta o resto da história: durante 20 anos o tempo de percurso não se alterou substancialmente. «Em 2020 demorava-se 4 horas e 13 minutos, mas o estado de degradação da linha levou à implementação de afrouxamentos que penalizaram a velocidade dos comboios. Antes do início da segunda modernização, a viagem de Santa Apolónia à Guarda já demorava 4 horas e 26 minutos», salienta o jornalista.
A partir de Domingo, o Governo e a Infraestruturas de Portugal (IP) acentuarão que as 4 horas e 11 minutos do Intercidades representam menos 15 minutos do que antes das obras. Mas em relação ao que se passava há 25 anos, o tempo ganho foi de apenas dois minutos.
Para além disso, algumas plataformas de acesso aos comboios ficaram mais pequenas, impossibilitando a CP de fazer comboios mais compridos. É isto que também evidencia o jornalista Carlos Cipriano: «Nove estações viram as suas plataformas encolhidas em 1218 metros, sendo que em Canas-Felgueira, Gouveia e Celorico da Beira a gestora de infra-estruturas decidiu encolher de 200 para 100 metros o tamanho dos cais de embarque. Deste modo, ali não caberão composições com mais de três carruagens».
O jornalista Carlos Cipriano refere ainda, no texto hoje publicado, que «a CP – Comboios de Portugal limita-se a repor a oferta que tinha antes do encerramento, sem tirar partido das novas possibilidades geradas pela variante da Mealhada». «Trata-se de uma nova linha de 3,3 quilómetros que liga directamente a Linha do Norte à da Beira Alta, permitindo a circulação de comboios directos sem necessidade de inverter a marcha na estação da Pampilhosa», acrescenta.
Para além disso, «a “nova” linha mantém também o mesmo sistema de sinalização e telecomunicações, não tendo ainda sido instalado o ERMTS (Sistema Europeu de Gestão do Tráfego Ferroviário), que assegura a interoperabilidade ferroviária com outros países».
Modernização integral da linha
Recorde-se que a circulação ferroviária na Linha da Beira Alta foi suspensa em Abril de 2022 por um período anunciado de nove meses para ser requalificada, e deveria reabrir em Janeiro de 2023. A Infraestruturas de Portugal viria depois a anunciar como data provável Novembro de 2023, prazo que foi novamente alterado, passando a ser Junho de 2024. A nova meta passou depois a ser o primeiro trimestre de 2025. Certo é que até agora só ainda foram reabertos os troços Mangualde-Celorico da Beira, Celorico da Beira-Guarda e Guarda-Vilar Formoso. A IP informou esta semana que o troço entre a Pampilhosa e Mangualde reabrirá no próximo Domingo.
No comunicado, a IP realça que, com a reabertura do troço Pampilhosa-Mangualde «é assegurada a reposição integral da circulação de comboios em toda a extensão da renovada linha, entre Pampilhosa e a fronteira com Espanha, em Vilar Formoso».
A empresa adianta que «na mesma data entrará em funcionamento a Concordância da Mealhada, uma ligação ferroviária de 3,2 quilómetros que conecta directamente a Linha do Norte à Linha da Beira Alta».
A IP recorda que «a intervenção compreendeu cerca de 190 quilómetros de via-férrea, com melhorias profundas no traçado, a construção de variantes e a supressão de todas as passagens de nível, aumentando a velocidade e a segurança da circulação».
Refere ainda que «as estações foram alvo de requalificação, com obras nas plataformas, salas de espera, bilheteiras, instalações sanitárias e espaços comerciais, para além da instalação de painéis informativos e sinalética renovada» e que «houve também uma atenção especial à acessibilidade para pessoas com mobilidade condicionada».
«Do ponto de vista técnico, a Linha da Beira Alta passa a dispor de sistemas modernos de sinalização electrónica e telecomunicações, bem como de zonas de resguardo que permitem o cruzamento de comboios de 750 metros, reforçando a capacidade de operação e a eficiência no transporte de mercadorias», acrescenta a empresa.





