Terça-feira, 10 Março, 2026
Google search engine
InícioDestaquesO motim do aguilhão no Sabugal ocorreu há cem anos

O motim do aguilhão no Sabugal ocorreu há cem anos

Faz hoje cem anos que ocorreu o que terá sido o acto de revolta mais significativo do povo do concelho do Sabugal contra uma série de leis impostas pelo Governo. Foi no dia 10 de Fevereiro de 1926 que cerca de mil e 500 manifestantes se concentraram na Praça da República, onde está localizada a Câmara Municipal, gritando palavras de ordem contra alguns dos impostos que tinham sido lançados, contra a licença dos cães e contra a licença para se ter vara com aguilhão. Para por fim ao “motim”, a GNR, a pé e a cavalo, carregou sobre os revoltosos, que «acabaram por regressar, desiludidos e cansados, às aldeias de onde tinham vindo». Os acontecimentos são evocados no livro «O Motim do Aguilhão no Sabugal», da autoria do escritor de Quadrazais, J. Pinharanda Gomes, publicado em 1978 pela Casa do Concelho do Sabugal.

Conta o escritor que «na manhã de 10 de Fevereiro, um dia normal, grupos de homens chegavam ao Sabugal, pelo lado da ponte. Vinham, uns, da estrada de Santo Estêvão, vinham, outros, da estrada, ou caminho, que ia para a Guarda. Chegaram com naturalidade, e sem pressa, e não se encontraram de imediato uns com os outros. Até que, por volta da uma hora da tarde, cerca de 1.500 manifestantes, tantos quantos os que tinham chegado, das diferentes freguesias, entraram agressivamente no largo denominado Praça da República, sitio da Câmara Municipal».
«Protestavam contra impostos recentemente lançados: o imposto de turismo, o imposto “ad valorem”, cuja cobrança fora arrematada pelas Finanças a publicanos, imposto esse que ia reflectir-se de um modo agressivo sobre a carestia da lavoura regional, e licença de cães, onde não houvera o cuidado de distinguir cães de luxo e cães de guarda, e a licença de aguilhão, essa ponta de afiado metal que, desde sempre, os lavradores usavam na ponta da vara – a aguilhada – para incitar as juntas de bois, ou de vacas, aguilhões esses que, em casos de insensibilidade humana, eram mais ferrões de castigo, do que brinquedo de incitamento», refere J. Pinharanda Gomes.

O escritor quadrazenho conta depois que os manifestantes, «que esperavam apoios vindos das aldeias arraianas, Quadrazais, Soito, Alfaiates, Aldeia Velha, Vale de Espinhos, Fóios …, concentraram-se na Praça da República, armados de cacetes, aos gritos, em discussão e protesto, sem uma notória organização, o que, às tantas, permitiu a alguns, mais violentos, ou desordenados, começarem a clamar por “morte aos das Finanças”, e “fogo à Câmara” – o que deveras contribuiu para incitar os ânimos, já dos manifestantes, já dos circunstantes». «”Queimavam-se os edifícios públicos, morria alguém, e o problema estaria resolvido” – comentava o repórter de “O Sabugal”, na edição da semana seguinte, a 17 de Fevereiro», escreve J. Pinharanda Gomes, adiantando que «os manifestantes não estão para gritos ordenados a um ritmo; gritam desordenadamente e avançam para as portas da Câmara, pedem pistolas, pedem espingardas, clamam morte, requerem sangue mas, em plena barafunda, ignora-se se tais exigências são ao sério (os cães que mordem ladram pouco…) ou se apenas se destinam a criar um ambiente de temor».
E «alguns, mais exaltados, vendo que ninguém responde aos proclames, ameaçam incendiar o prédio das Finanças, enquanto, dentro do edifício camarário, Ismael Mota, o secretário da edilidade, é ameaçado de agressão física, em resposta às tentativas, que ia fazendo, para acalmar os ânimos», escreve o autor, acrescentando que «um indivíduo de Sortelha, Jaime Gonçalves, conseguiu proteger a entrada [da Câmara], no que aplicou todo o vigor, contra a onda de gente que sobre ele se abatia, enquanto era auxiliado por outras pessoas».

«No momento em que os circunstantes já não viam senão a Câmara a arder, eis que surgem elementos da G.N.R. a pé e a cavalo, vindos dos lados do Castelo, pela porta da Torre Brás Garcia de Mascarenhas. Confusão. Gritos. Ameaças. Contusões. Agressões. Um cavalo ferido. Tiros. Os manifestantes vão perdendo as forças. Sentem a falta de algo, prometido e garantido, a chegada dos manifestantes das aldeias da Raia, que não há maneira de chegarem. Se chegassem, seria o fim! Mas não chegaram», conta o escritor. E a GNR «tivera força suficiente para destroçar o motim, cujos agentes acabaram por regressar, desiludidos e cansados, às aldeias de onde tinham vindo».

Motim foi recriado em 2013

O Centro Histórico do Sabugal foi o palco, em Julho de 2013, da «Revolta do Aguilhão», a cargo do Grupo de Teatro Nacional de Rua. O evento foi o momento alto da programação da recriação histórica «Sabugal, Surpreenda os Sentidos – Viagem aos Anos 20», que decorreu no Largo do Castelo, que se encheu com tendinhas integradas num arraial tradicional. A iniciativa foi organizada pelo Município do Sabugal e pelas Aldeias Históricas de Portugal. (Fotos: capeiarraiana.pt)

Artigos Relacionados
- Advertisment -
Google search engine

Artigos mais populares